"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sábado, 29 de junho de 2013

O Espiritismo e o Espiritismo do B – Carta aos Espíritas.



Meus caros amigos da Revista “O Consolador”. Muito relutei em escrever um texto fundamentalmente dirigido aos espíritas que tratasse da situação política do Brasil e dos recentes protestos que estão ocorrendo nas ruas. Confesso que começo essas linhas perturbado pela dúvida de que isto seja realmente possível. Pergunto-me, com toda sinceridade,se existe uma forma de fazê-lo sem raiva e mantendo em primeiro lugar erguida a bandeira do perdão e da caridade contínuas.
Começo afirmando o seguinte: qualquer professor de história, sociologia ou outra ciência humana que aparecer na mídia afirmando ter a chave para interpretação desse caos todo que está nas ruas está faltando com a honestidade intelectual. Sustento, meus irmãos, que não sabemos o que de fato está ocorrendo e que oscilamos como um pêndulo que nos leva das mais absurdas teorias da conspiração até a hipótese ridícula de que “o Brasil despertou” e está acontecendo uma verdadeira mudança nos rumos da “democracia brasileira”.Não pretende ser o objetivo desse pequeno texto a realização de uma análise detalhada da conjuntura política. Aqui escrevo aos espíritas com o objetivo de lançar um alerta geral: aproxima-se cada vez mais do poder um grupo de espíritos de baixa estatura moral, de mínima proximidade da luz e cujo objetivo seja talvez implementar no Brasil um projeto de expiação..um carma coletivo em que um dos próprios fundamentos da Doutrina Espírita – o da responsabilidade enquanto indivíduo – há de ser diluído e enfraquecido quase ao ponto de desaparecer.
Não há, em toda história da humanidade, nenhum exemplo de governo totalitário capaz de tolerar uma relação homem-Deus tão individualizada e tão poderosa quanto aquela oferecida pela doutrina de Kardec. Também não conheço nenhuma outra escola de filosofia em que o caráter de transcendência possa ser uma ameça tão séria ao materialismo histórico quanto essa que vê na reencarnação uma lei natural.
Estamos assistindo no Brasil o apocalipse da última e mais importante instituição social que faltava ser derrubada – a família. Não existe mais, há muito tempo, uma idéia de nação ou de Deus capaz de fazer frente a anarquia e ao relativismo dos movimentos sociais. Marcha da Vadias, Liberação da Maconha, Movimento Gay e tantos outros surgiram como golpes de misericórdia para uma nação que vai a Igreja aos domingos, frequenta o templo da Universal nas quartas e vai no Terreiro da Mãe Joana às sexta-feiras.
Esse ativismo todo..essa confusão de manifestantes sem linha de coerência alguma já não tem inimigos. Adquiriram o status de manifestações da legítima democracia e ainda não surgiu, no maior país espírita do mundo, nenhum projeto de poder capaz de oferecer resistência ao marxismo cultural.
Longe de mim escrever uma espécie de Manifesto Espírita! Deus me livre de transformar Kardec numa bancada do Congresso Nacional. Vocês, tanto quanto eu, sabem que não há lugar para esse tipo de ambição no coração de um espírita de verdade, mas há que se lembrar que, cedo ou tarde, o espiritismo, se não puder ser cooptado como uma fonte de poder pelo Partido-religião que governa o Brasil, vai se tornar seu inimigo.
O espiritismo não pode conviver em paz no mesmo país que o Partido dos Trabalhadores por que oferece uma poderosa visão alternativa àqueles que não acreditam em coisa alguma, àqueles que pensam que a lei da história é a luta de classes e aos que não creem na caridade gratuita. Não se trata portanto de querer que o Movimento Espírita Brasileiro aproxime-se da política partidária, mas sim de evitar que a política partidária aproxime-se da verdadeira doutrina insuflando nos centros espíritas debates em nome de “um espiritismo sem preconceitos” ou relativizando mensagens que, codificadas por espíritos de alta elevação, ficaram muito claras e constituem o cânone da própria doutrina. Não se pode, pois, em nome do combate ao sectarismo e do fanatismo dentro do espiritismo passar a relativizar tudo em nome de uma suposta “evolução da religião” e dos adeptos dela.
Ou lembramos disso ou em breve vamos ter no Brasil o Espiritismo e o Espiritismo do B.


Porto Alegre, 29 de junho de 2013

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