"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

REPROVADOS E DESAPARECIDOS – CRIANÇAS NO CFM




Muito interessante a nota emitida ontem, dia 29, pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Depois de 91% dos candidatos (dados do próprio CFM) serem reprovados no exame de Revalidação o CFM “desconfia” que o Programa Mais Médicos possa ser alternativa para que esses profissionais passem a exercer a profissão no Brasil.
Pergunte-se: e se isso for verdade? E daí? Qual o poder que tem o Conselho sobre esses profissionais? Não foi o próprio presidente, Roberto Luiz D'Ávila, que aceitou abrir mão dos registros desses médicos concedendo essa prerrogativa ao Ministério da Saúde? Não foi o próprio CFM que emitiu nota em 10 de outubro afirmando que nesse acordo havia alcançado para os médicos a “conquista de uma carreira pública”??
Existe, em toda ditadura, uma necessidade de falsa oposição...um mínimo de critica e de ataques através da imprensa e das instituições que possa garantir a falsa idéia de normalidade...a impressão de que as coisas não vem “de cima pra baixo”..e a aparência de independência de opinião. Nada mais nesse país escapa ao controle do PT. Quem não o diz abertamente o faz de maneira velada sustentando em frases de lugar comum o relativismo que tudo inviabiliza e a complacência moral que confere uma aparência de modernidade.
Quando vem a público com um texto hipócrita como o mencionado no início é esse o jogo que faz o CFM..é a isso que se presta divulgando a imagem de independência de pensamento da qual ele mesmo aceitou abrir mão. Nesse processo nada há de particular no que se relacione à Medicina. Questões polêmicas dentro da sociedade passam a ser discutidas à luz de um ordenamento moral maior e implícito no discurso..e de uma lógica que outro dia dissemos possuir um caráter “transversal”. Questões como racismo, xenofobia, comportamento sexual e crenças religiosas “entram” como ponto de referência nos debates mais absurdos. Nada se pode mais discutir sem antes saber com certeza em qual dos campos encontra-se o debatedor. Ao mesmo tempo que preocupa-se com médicos que não passaram no exame de revalidação, o CFM apresenta em sua página com letras garrafais a preocupação do Conselho com crianças desaparecidas e divulga a campanha de “humanização na Medicina” - anestesia perfeita no momento da morte da profissão no Brasil.
Não houve um só “desconstrucionista” dos anos 60 que não atacasse ferozmente a “ordem do discurso”..que não visse nela de forma implícita, a reprodução dos “valores dominantes” e a “lógica da exploração”. Fumaram maconha, fizeram passeatas, chamaram Mao Tse Tung de filósofo, acreditaram nas bobagens de Timothy Leary e chamaram de arte a picaretagem de Andy Warhol. Destruíram a própria possibilidade de um fundamento racional e ponto em comum num debate filosófico relativizando conceitos em nome da “LSDemocracia” e do fim da “opressão”. Nada sobreviveu...nada ficou...Referência moral alguma existe para nos socorrer pois tudo há que se questionar..tudo há que se discutir num mundo em que a única verdade é que a “verdade é relativa”.
Cada vez que escrevo, mais repetitivo me sinto...rsss. Não vejo um pensamento filosófico original que não deva ser hoje em primeiro lugar um “muro das lamentações” pois penso que o vazio deixado por 1968 não permite mais sequer um debate sério entre pensadores distintos. Conferências mesas redondas, e palestras em nada podem avançar quando debatedores se medem do ponto de vista moral e não de uma argumentação séria. Iniciar discussões dotado de fortes convicções é pecado mortal no meio acadêmico. Quem assim se apresenta já perde “pontos na saída” perante uma plateia que quer se sentir “perdida”..que aprecia a sensação de “nada saber” e que num processo de identificação puramente emocional elege um vencedor.
Nasceu a época dos “shows” de filosofia...dos intermináveis debates sem termos em comum, da oposição permitida e da necessidade de sentir-se em “sintonia” com valores maiores (seja lá o que isso queira dizer) que vão determinar se você, mesmo sem ter mencionado algum deles merece ser respeitado quando discute e se opõem a qualquer coisa..
Vejam o recado deixado pelo CFM: Nos respeitem pelo amor de Deus quando criticarmos o programa Mais Médicos. Nós somos médicos “bonzinhos” e em sintonia com a realidade. Desconfiamos dos reprovados, mas pensamos nos desaparecidos.. Somos as crianças do CFM

para o meu pai e para todos os pediatras que ainda falam português...


Porto Alegre, 30 de outubro de 2013

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