"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 7 de março de 2014

O GRANDE ELEFANTE VERMELHO


Elisane Reis Ribeiro


Imaginem uma pacata praça central de cidade do interior. Árvores, arbustos, alguns bancos, idosos conversando, crianças com seus brinquedos. Tudo muito simples e sossegado. Imaginem um grande elefante chegando à praça (não perguntem o porquê: verão que o bizarro é a moral dessa história). Não se trata de um elefante comum. A espessa pele é vermelho-brilhante, e o torna a antítese da discrição. Este também não é um bichinho dócil. Feroz e agitado, espanta as pessoas e os pássaros da praça, pisoteia grama e flores, destrói bancos, coreto e chafariz, deixando o local em ruínas. E lá se estabelece com suas várias toneladas. Com o tempo, os habitantes da cidade se acostumam a sua presença. Não é lá muito cordial, e exige bastante comida para não ficar nervoso. No entanto, as pessoas quase que se afeiçoam a ele, por se habituarem ao inicialmente estranho forasteiro.

O que era motivo de comoção virou normal.

Amanhã, e em todos os dias seguintes, jornais e revistas vão estampar as mesmas notícias de todos os dias. Mortos em assaltos, crimes impunes, esquemas de corrupção, fraudes milionárias, propinodutos, dados desanimadores de educação e economia. Vamos ler as notícias, pontuando nossas conversas diárias com, no máximo, um “que absurdo!”; para a seguir perguntar o que temos para jantar ou comentar sobre o calor. O mal tem ocorrido em proporções tão grandes, e com tanta frequência, que nos permitimos pensar que é a norma. Incorporado à nossa rotina, em todos os aspectos, torna-se banal - um novo padrão.

Com o tempo, outros elefantes chegam e se juntam ao primeiro. Tão ou mais esdrúxulos, de todos os tipos antes inimagináveis: azuis, com lantejoulas, ou mesmo cobertos de penas e voadores. Os moradores da antes sossegada cidade abrem a despensa e filhotes dos elefantes caem dos armários (provavelmente já devoraram o que havia neles). Sua existência nesse meio é corriqueira, como a existência de abusos e injustiças em nosso dia a dia. Iniquidades já não chocam mais, ou, ao menos, não mais do que alguns segundos.

Os que vêm de fora da cidade ainda ficam surpresos. Mas, se algum desses questiona o fato como anômalo escutará (de um cidadão esmagado por um paquiderme em seu colo): “É normal! Sabe quem nem incomodam?” Muitos outros dirão: “Sempre foi assim.”

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