"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A MORTE DA FILOSOFIA POLÍTICA


Milton Pires

Já que brasileiro algum em 2014 consegue ler qualquer coisa sem, imediatamente, imaginar o quê ou quem está “por trás” daquilo que foi escrito...sem fantasiar de uma forma patética sobre “quais as verdadeiras intenções” do autor ou sobre que “tipo de campanha” está ele fazendo, inicio estas linhas com a seguinte observação: não sei em quem vou votar, não estou fazendo campanha alguma pelo voto nulo, e não sei de ninguém, nem tampouco de partido algum, “por trás” de mim.
Vem me cansando e, com frequência, me irritando as besteiras que tenho lido sobre o voto nulo e, dentre todas elas, as afirmações de que “votar nulo é votar no PT” é sem dúvida a mais perigosa. Frase tosca e que, em si mesma, constitui um absurdo em termos lógicos, ela cai como uma luva na boca (embora eu não soubesse que luvas entrassem na boca) dessa entidade imaginária chamada “povão”....Sim, do povão meus amigos, essa massa gigantesca da qual todos nós pensamos NÃO fazer parte..rsss..
Deixo agora as “luvas na boca”, o “povão” e o “voto nulo num partido” para trás afirmando o seguinte: as ideias sobre democracia, participação popular e voto nulo que circulam pela internet são a marca registrada daqueles que, sem saber coisa alguma sobre história ou filosofia política, repetem bobagens e mais bobagens sem parar. Lembro ainda que o grande perigo de repetir bobagens é que lá pelas tantas elas passam a ser “verdades”, não é mesmo?
Tudo aquilo que até hoje se escreveu em termos de Filosofia Política, desde Platão até Olavo de Carvalho, teve como objetivo principal a busca pelo melhor modelo de Estado, as relações gerais dentro da sociedade e as questões de participação e deliberação dentro dela. Curiosamente, as democracias ocidentais parecem ter decretado a morte da Filosofia Política, não parecem?? Essas questões todas que mencionei acima parecem ter sido resolvidas: a Democracia é o “melhor de todos os sistemas”! Fora da “participação popular” não há salvação! Quem não vota “não pode reclamar”! São esses os dogmas dos quais se aproveita qualquer partido totalitário na missão que é comum a todos eles: a construção de uma ilusão de liberdade...Liberdade essa que, uma vez forjada, é garantida pelos votos dos analfabetos, dos presidiários, dos doentes e das minorias que foram, e sempre serão, magistralmente manipuladas pelo Partido dos Trabalhadores...
No Brasil é tão grave a falta de conhecimento das origens daquilo que poderíamos chamar de “cidadania” que transforam-se as eleições na sua única prova. Quantos são os brasileiros capazes de entender que não é o “direito” (direito obrigatório..rsss) de votar que os faz cidadãos? Quem, dentre nós, percebe que brasileiros somos porque aqui nascemos e aqui pagamos nossos impostos independentemente de votarmos ou não?? Até quando vai isso que a grande imprensa chama, de quatro em quatro anos, de “festa da democracia”???
Quem até aqui seguiu essas linhas pode estar pensando: perdi meu tempo lendo mais um que faz a apologia da “desobediência civil” ..um desses que prega o voto nulo em nome da liberdade de consciência..Respondo eu: “gastei meu tempo escrevendo para mais um utilitarista”...mais um daqueles que diz que “é preciso votar em alguém” e escolher, dos males, “o menor”...
Como vocês já devem ter percebido, a questão não tem resposta definitiva...não há “certo ou errado” nessa questão da Filosofia Política, mas há que, pelo menos, garantir-se o direito da própria reflexão, da liberdade de pensamento quanto a participação nas eleições e do voto nulo como voto consciente de um cidadão e de uma sociedade que perceberam o fim das opções, a morte das escolhas e a ausência das diferenças entre uma corja que hoje apresenta-se como eventual candidata a governar o Brasil em 2015. Pergunto a mim mesmo, nas últimas linhas, se não acabei por escrever aqui sobre o fim da Democracia no Brasil. Respondo eu mesmo que talvez o tenha feito..mas, graças a Deus, não decretei (como querem os fanáticos do voto útil) a Morte da Filosofia Política..

Àqueles que estavam comigo em 1989 e que,como eu, acreditaram...

 Porto Alegre, 23 de maio de 2014

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