"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

domingo, 22 de junho de 2014

FALAR SOBRE O QUE NÃO SABE



Milton Pires

À medida que uma pessoa vai ficando mais velha fica mais difícil aprender novas coisas? Debate bom, né? Não sei se isso é verdade. Talvez nesse tipo de assunto valha mais a máxima de Nelson Rodrigues (toda unanimidade é burra) e mais sensato fosse que eu escrevesse sobre mim mesmo e as “minhas dificuldades” em aprender coisas.
Não sou velho...não me sinto velho, mas venho observando em mim uma certa preguiça, um certo tipo de preconceito. Ela (ou ele) se manifestam quando preciso deixar de ler ou estudar aquilo que gosto para me inteirar e poder escrever sobre pessoas, fatos ou coisas sobre os quais antes eu nunca havia escutado coisa alguma..eu sequer sabia que existiam...
Explico agora por que comecei o artigo assim: disponíveis no youtube e circulando por toda internet estão vídeos em que um senhor chamado José Trajano (de quem eu jamais sequer havia ouvido falar) e Juca Kfouri (esse sim, eu conhecia), comentaristas da ESPN, criticam primeiro aquilo que aconteceu em doze de junho por ocasião das vaias à presidente Dilma e depois ataques fazem às pessoas raivosas “que só semeiam o ódio” como Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes e Demétrio Magnoli.
Faço uma pausa agora na linha de raciocínio para ligar o primeiro ao segundo parágrafo do texto afirmando o seguinte: preguiça me desperta e irritação me toma ao ter que ler e descobrir quem é o senhor José Trajano para poder, nesse artigo, expressar o que penso. Eu não tinha, até ontem à noite, a mínima noção de quem pudesse ser esse senhor. Conheço pessoalmente Reinaldo Azevedo que por Trajano foi atacado. Reinaldo esteve em Porto Alegre por ocasião do lançamento de “O País dos Petralhas II”. Mesmo tendo sido breve a nossa conversa, tenho por ele a mesma estima e respeito que milhões de seus leitores. Espero em breve vê-lo em Porto Alegre novamente e não há um dia sequer em que não leia eu, com atenção, tudo aquilo que publica em seu blog. Faço outra pausa para, num exercício de imaginação, peguntar o seguinte: vamos dizer que eu não gostasse do Reinaldo, vamos dizer que eu discordasse das suas análises políticas e que até o considerasse membro de uma “direita raivosa”...vamos supor que eu pensasse tudo isso e razão quisesse eu dar ao senhor Trajano..pergunto o seguinte: quem, em nome de todos os diabos, é o senhor Trajano para numa manifestação só pensar que pode fazer uma crítica séria do trabalho de Reinaldo, de Augusto, e de Demétrio?
Meus amigos, eu sou médico. Eu não entendo nada de jornalismo. Meu conhecimento da situação política é aquele dos amadores. A única qualidade que suponho ter é a de reconhecer o trabalho e a história prévia das pessoas que se dedicam profissionalmente a uma atividade. Deixo aqui um exemplo. Alguém me pergunta: “Milton, o que você pensa de Marilena Chauí?” Eu: “Acho uma pessoa detestável e uma filósofa menor”. A pessoa: “Você aceita discutir filosofia com ela?” Eu: “Não tenho a mínima chance..vou ser esmagado sem dó..é a mesma coisa que ela discutir medicina comigo”.
Até hoje o único Trajano célebre e que recordação me trazia pelo simples pronunciar do nome era o Imperador Romano. Reinaldo Azevedo me antecedeu dizendo a mesma coisa na seu blog. Depois das vaias à presidente da República, o José Trajano da ESPN vem somar-se a todos os demais da história, aos imperadores e brasileiros desconhecidos..aos plantadores de laranjas que o “nosso” Trajano diz que vai trazer para responder às pedradas..enfim ao mais comum e muitas vezes mais medíocres de todos os cidadãos brasileiros..a essa espécie de homem-massa que vai deixar para posteridade a lembrança de que só havia uma coisa que ele, Trajano-comum, gostava mais do que futebol e carnaval: falar sobre o que não sabe.

Ao Reinaldo, Augusto e Demétrio,

Porto Alegre, 22 de junho de 2014.  

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