"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

UM PACIENTE NO TEMPO


Milton Pires

Em 1910 um escritor britânico chamado Norman Angel apresentou à Europa um livro chamado “A Grande Ilusão”. Sua tese era de que, tendo em vista a interdependência econômica das nações e a falta de controle das verdadeiras fontes de riqueza por parte das sociedades, seria “absolutamente inevitável que o homem médio estivesse destinado a afastar-se para sempre de qualquer forma de guerra.” Quatro anos depois do lançamento da sua obra, o mundo assistiu o mais devastador e espetacular conflito da história até então: a Primeira Guerra Mundial.
Esse ano, mais precisamente daqui a dois dias, completa-se um século do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e de sua esposa, a princesa Sophie – evento que é considerado formalmente como o início de uma guerra que durou quatro anos e cujo número correto de vítimas até hoje não se conhece com exatidão. Estima-se que 11 milhões de pessoas perderam a vida.
Não é exatamente o meu objetivo aqui escrever sobre a história da Primeira Guerra Mundial. O artigo foi iniciado dessa forma para estabelecer uma comparação...um determinado pano de fundo para o mundo de 2014 e para, sobretudo, discorrer sobre um certo sentimento, uma espécie de senso comum que existe entre nós, os homens “médios” de Norman Angel, no sentido de que todas “as grandes coisas já parecem ter acontecido” ou, como disse alguém em 1912, já “terem sido feitas”.
De uma maneira geral eu acredito, e assim vou sustentar, que essa sensação que descrevi acima, tão coletiva e tão difusa, é a responsável por um sentimento geral de desconfiança..por um olhar quase clínico que encontra em cada comentarista político, historiador ou cientista social um objeto para piedade..para tão politicamente correta piedade que nos faz ver, em quase tudo, uma teoria da conspiração.
Mais de uma vez eu usei da expressão “patologia do tempo” para definir uma sociedade doente que, lembrando certas vítimas de trauma craniano, não consegue formar memória recente sobre coisa alguma e que guarda como lições da história fatos antigos..fatos muito importantes, mas tão antigos que perderam, por parte de um mundo desesperado pelas novidades, o respeito que mereciam ter. Chamo agora, nesse ponto, a atenção para uma combinação nova..para uma combinação quase que clinicamente perigosa: uma situação em que a história recente não nos parece deixar lição alguma e um contexto onde tudo que deveria ser “grandioso, magnífico e trágico” já parece ter acontecido. Talvez pudesse alguém perguntar-me aqui o que entendo eu por recente em termos de história. Respondo dizendo que tomo como parâmetro aquilo que o mundo viveu exatamente nos últimos cem anos...mais precisamente partindo do ponto em que comecei esse texto: o advento da Primeira Grande Guerra. Afirmo acreditar, sem medo algum, que para qualquer ocidental...para o homem médio de Angel ou para o homem-massa de Ortega y Gasset, a probabilidade de recordar-se ou de reconhecer no tempo o período correto de qualquer coisa é muito maior para aquilo que está descrito antes do século XIX do que para o período que defini acima como “passado recente”. Terrível nisso que descrevi é lembrar-se do que foi o século XX...das lições que dele deveríamos ter tirado para sempre, das experiências totalitárias da Alemanha nazista e da União Soviética...da China maoísta e do horror da batalha de Argel..do delírio de Pol Pot no Camboja e do mundo alucinado do Sendero Luminoso aqui mesmo, do lado do Brasil, na América Latina.
Concluo, pensando nesse período, e sobretudo das lições que NÃO tiramos dele, que todo o horror que o mundo viu no século XX não foi suficiente para uma mudança crucial que poderia ter acontecido...para um lição que não aprendemos ainda no sentido de questionar utopias e paraísos artificiais...regimes perfeitos e ideologias caducas que, desde 1789, vem transformando a vida na terra num verdadeiro inferno justamente em função do sonho de “torná-la melhor para todos”. Nada de bom, creio eu, produziu-se em termo de filosofia da história...nada nos ajudou a dar um sentido ao horror e pior, teorias surgiram no sentido de que devêssemos, nós mesmos, abandonar essa busca de sentido..que obrigados fôssemos, cada um, a nos tornarmos psicanalistas disso que chamamos de história quase acreditando nela, história, como uma doença que uma vez contraída não volta mais e que faz, de toda humanidade, apenas mais um paciente....Um Paciente no Tempo..

Ao meu amigo, Dr. Heitor De Paola...

Porto Alegre, 26 de junho de 2014.



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