"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

terça-feira, 22 de julho de 2014

AS BRUXAS

"Tomorrow and tomorrow and tomorrow…" (Macbeth:Ato 5,cena5)

Emmanuel Evangelos Haji Antoniou


Manhã de sexta. Do outro lado da linha o colega implora uma vaga para um caso grave. Apesar da superlotação, apesar das 72 horas de plantão, aceito.
Chega uma criança de dois meses já em choque, com hemorragias pelo corpo, lutando por respirar. Para os leigos uma meningite grave. Para os mais técnicos, Síndrome de Waterhouse-Friderichsen. Rápida evolução e infelizmente em quatro horas, fatal. Questionada, a família afirma que levou ao posto da cidade pequena aqui do interior, mas quando o medicamento não funcionou, levou a uma especialista: A benzedeira.
O que faz uma pessoa atuar ainda no século XXI e na era da informação neste tipo de atividade só me causa espanto. Consigo achar duas explicações: Ignorância ou má fé. No primeiro caso retardou-se em horas preciosas o atendimento. No segundo já é assunto para o judiciário.
Faz-se tudo, mas as “três bruxas de Macbeth”, as veteranas enfermeiras já haviam vaticinado na entrada: “-Ih doutor, não vaia adiantar, esse já foi...”. Fazemos de tudo, e realmente, a ”profecia” se cumpre. O tempo, sempre ele, foi inexorável.
Isso, somado a tudo que vem ocorrendo, me faz pensar se realmente vale a pena ser médico no Brasil. Lutamos contra a ignorância tanto publica quanto privada. Lutamos contra aqueles que na sua certeza cega , tentam usurpar as competências que não tem, justificando-se atrás de uma “cultura popular”. Lutamos e lutamos pelo tempo, pelo amanhã que nos escapa já no dia de hoje. Lutamos. (Fica a dica para minha filha que teimosamente, contra as “ordens” do pai, insiste em querer esta carreira).
Segunda feira. Fim de plantão. Acabaram-se as setenta e duas horas, e acabei-me eu. Parto para buscar as horas de sono roubadas, e tentar juntar mais horas a solitária uma que consegui nas ultimas vinte e quatro. Quase perto de cumprir a meta, toca o telefone. Outro colega. Desta vez ajuda para uma remoção de uma criança em crise convulsiva. Apelar para uma criança doente junto ao pediatra, devia ser contra a convenção de Genebra.
Aceito. Quatro horas de estrada depois, chegamos ao paciente. Oito anos acamada. Respira por uma Traqueostomia(aos leigos, orifício feito na garganta para passagem do ar por um tubo). Alimenta-se por uma gastro(outro “buraco”, desta vez no estomago). Paralisia cerebral. Diversas internações: Pneumonias, Infecções, UTIs. 
A família seria aquilo que o governo chama de “elite branca burguesa”. O pai funcionário de uma empresa. A mãe, técnica de enfermagem. Lutam com o convenio e com o governo pelo tratamento da filha. Ninguém faz “vaquinha” por ela. Ninguém faz “coleta para ajudar a causa”.
A família teve que adaptar o quarto, comprar equipamentos, remédios. Para poder transportar a filha, foram obrigados a montar uma ambulância para leva-la na praia. E tome regulamentos, normas, Detran. “Muito faz quem não atrapalha” dizia minha avó. O governo que pouca ajuda, ainda atrapalha muito.
Fiquei na duvida: O que move esta família? Sabem do péssimo prognostico. Sabem do pior. Se peço algo a Deus é que eu não sobreviva a meus filhos. O deles não vai.
Entretanto, vejo a criança se assustar ao entrar na ambulância. Seus olhos procuravam algo. Ao encontrar novamente a mãe, um sorriso aflora. A mãe vem na estrada contando sua aventura nestes anos. Bom humor, risos, nenhuma palavra de arrependimento ou de cansaço. Nenhuma mágoa, nenhuma dor.
Ao desembarcar após quatro horas de viajem, agradece a equipe e se vai com a filha para mais um round na UTI. Não, a senhora não precisa agradecer. EU agradeço. Por me lembrar de por que e para quem apesar de tudo estamos e sempre estaremos aqui.
As “bruxas” (e as benzedeiras) não vencerão. Sempre haverá um amanhã.
Ah, esqueci! A filha foi adotada por eles, mesmo tendo mais filhos e mesmo já sabendo do problema dela.

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