"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A Nova Direita e a Igreja Cultural.


Milton Pires.

Na Grécia antiga ficaram conhecidos como “sofistas” os filósofos que acreditavam ser possível fazer a defesa de qualquer assunto desde que isso fosse conveniente àquele que emitia o discurso e desde que tal exposição fosse feita em termos suficientemente adequados para convencer o interlocutor. Sofista era, portanto, antes de tudo, aquele que dominava um determinado repertório...uma determinada linguagem sem vínculo nenhum com aquilo que se considerava o fim de toda a ação humana – a ética e a política. Protágoras, Górgias e Isócrates representavam esse tipo de filósofo que foi combatido por homens do porte de Sócrates e Platão. Estes últimos entendiam as sensações, percepções e opiniões de cada indivíduo como fontes de erro e confusão na busca daquilo que chamavam de “verdade”.
Inicio este pequeno artigo sobre “Direita e Esquerda no Brasil” mencionando os sofistas porque muito lhes agradaria discursar sobre o que significam estes conceitos sem no fundo dizer coisa alguma de verdade. Pouco importa lembrar que tais definições remetem à Revolução Francesa mas, mesmo assim, vamos lá: “Direita e esquerda são posições políticas originárias do lugar ocupado nas cadeiras da Assembleia Nacional Constituinte francesa, no tempo de Luís 16, os anos finais do século 18. Os representantes dos nobres, burgueses ricos e elementos do clero ficavam à direita. Eram os que não queriam grandes alterações na ordem social e política, que os beneficiava por meio de um sistema de privilégios. Os representantes da pequena e média burguesia e de pessoas simpáticas a tais setores ficavam à esquerda. Eram os que desejavam o fim dos privilégios e uma reforma política e social que, segundo eles, tiraria a França da crise em que se encontrava, e em função da qual o rei havia convocado a Assembleia.” Bonito, não é? Simples e direto: de um lado os “malvados” e do outro os “bonzinhos”. Essa definição que vocês acabaram de ler é comum na internet. Para colocá-la nesse artigo, não fiz mais do que teclar “copiar” e “colar”.
Quem, pergunto eu, lendo um parágrafo assim teria coragem, no Brasil Petista, de se definir como sendo alguém a favor da “direita” ? Ninguém em juízo perfeito, não é mesmo?
Pois bem, vai aqui uma dica para enfrentar alguém numa discussão sobre esse assunto: não aceite definições prontas dada pelo seu interlocutor. Tenha você mesmo conhecimento histórico e cultura suficiente para desarmar os sofistas que, até hoje, estão por aí.
Esquerda, na história ocidental recente, nos remete à tradição revolucionária iniciada a partir de 1848 com Karl Marx e a publicação do Manifesto do Partido Comunista. Seu legado são os mais de cem milhões de mortos deixados no século XX pelos regimes genocidas da URSS, da China e de seus países satélites na Europa Oriental e no chamado terceiro mundo. Seu representante máximo no Brasil é o Partido dos Trabalhadores e sua organização se dá através de uma "instituição" criminosa chamada Foro de São Paulo. Entender que essa gente quer implantar no nosso país uma ditadura comunista não é fácil. É preciso lembrar que, a partir de 1960, toda luta revolucionária deslocou seu foco que inicialmente consistia em apoderar-se do Estado e dos meios de produção para assim chamada “luta pela hegemonia cultural”. É por isso que fica tão difícil, para quem não conhece a história da esquerda, identificar atualmente o que seja um verdadeiro partido revolucionário. Com a chamada “Queda do Muro de Berlim” ficou mais difícil ainda perceber que continua viva a utopia do mundo comunista e a luta pela sua implantação.
O esquerdista brasileiro é, com frequência, ateu, agnóstico ou, pior ainda, luta pela infiltração e destruição progressiva das igrejas tradicionais. Ele habita as ONGS e movimentos sociais e defende um estado gigantesco e paternalista fundamentado naquilo que chama de “direito à diversidade”.
Direita, no Brasil de hoje, é tudo aquilo que é identificado pelo PT como “oposição”. Não é a direita que diz quem é: ela ganha esse rótulo, ela aceita, passivamente, essa “ofensa”..essa “determinação” vinda da esquerda sem ao menos sequer ter capacidade para compor um conjunto de ideias e princípios capazes de fazer frente, como projeto de poder, ao movimento revolucionário.
O PT faz questão de apresentar-se ao mundo todo como um partido “social democrata” quando na verdade é um partido revolucionário. O PSDB é apresentado a todo Brasil como um partido de “direita”, quando na verdade é um partido social democrata e, portanto, seguidor da tradição esquerdista.
Em resumo: há esquerda organizada no Brasil ? Sim, e muito bem organizada. Há direita? Não ! De maneira alguma. Existem políticos defendendo as liberdades individuais, o respeito à Constituição, o estado mínimo, a iniciativa privada e a livre concorrência? Sim, existem, mas de maneira alguma eles compõem um partido ou um grupo de partidos capazes de fazer frente ao Foro de São Paulo. Isso acontece em função da maneira como é travado o debate político no Brasil. Apresenta-se um conflito entre social democracia e neoliberalismo, uma batalha contínua, supostamente travada entre petistas e tucanos, e que se dá entre uma doutrina política e um pensamento econômico. Todos aqueles que tentam formar a chamada “nova direita” no Brasil para enfrentar o PT sucumbem por um motivo simples mas, ao mesmo tempo, fundamental – a incapacidade, a verdadeira insuficiência de forças no terreno cultural. A hegemonia cultural, o pensamento brasileiro como um todo, está dominado pela esquerda. Sua força é tão grande que retiraram, inclusive, da direita a prerrogativa de dizer o que ela, direita, é. Uma pessoa de “direita” no Brasil passou, portanto, a ser vista pela população como fascista, fanática religiosa, xenófoba, machista, agressora de mulheres, e adepta do retorno do Regime Militar. Tudo isso é o que o PT e a esquerda dizem da direita; nunca o que ela diz de si mesma. Ela, a direita, não tem sequer coragem de apresentar-se como tal e de expor um corpo doutrinário capaz de identificá-la.
Quando alguém, portanto, perguntar a você quem são a “direita” e “esquerda” brasileiras responda sempre o seguinte: “não existe direita nesse país. Existe só a esquerda e aquilo que ela, esquerda, aponta como direita quando lhe for conveniente.” O primeiro passo de uma eventual “direita” na luta contra essa situação é não aceitar, acerca de si mesma, uma definição dada pelos petistas cujo objetivo é infundir um sentimento de vergonha e de constrangimento perante a sociedade brasileira. Para isso o PT vai, sempre, rotular como “apoiador do regime militar” qualquer partido ou cidadão que desafiar seus dogmas. A esquerda brasileira é, num só tempo, um partido político, um movimento armado, e uma igreja cultural de fanáticos. Quem quiser formar a “Nova Direita” no Brasil vai ter sempre que lembrar por onde começar – a “igreja cultural” foi o primeiro passo da esquerda e, obrigatoriamente, precisará ser o da direita também.

Dedicado ao amigo, Leudo Costa..

Porto Alegre, 12 de novembro de 2014.

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