"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

RÉU ABSOLVIDO – CASO ENCERRADO.


Milton Pires


Certa vez escrevi que aquele que pretende separar completamente religião e política incorre num erro perigoso: um mundo completamente governado pela religião nos levaria ao delírio do Estado Islâmico do Irã e da Síria (ISIS). Um mundo em que não existe crença alguma em Deus nem numa continuidade do espírito após a morte determinaria uma civilização governada nos moldes de Cuba e da Coreia do Norte. Há, pois, que existir um meio-termo, mas há, também, que se tomar extremo cuidado com uma “mistura” constante do dois.
Aumenta cada vez mais, na internet, o número de pessoas e páginas que insistem em apresentar o movimento revolucionário como algo “satânico” e o próprio Partido dos Trabalhadores (PT) como sendo coisa relacionada ao “Diabo”.
A primeira, e mais importante, referência que me ocorre fazer a respeito desse assunto é o livro “Eichmann em Jerusalém”de Hannah Arendt. Conhecido pelo subtítulo “Um Retrato sobre a Banalidade do Mal”, o livro fez com que uma gigantesca parte da comunidade judaica internacional, inicialmente, atacasse a autora no sentido de afirmar que ela estava “diminuindo a importância do holocausto” e, alguns até, “de certa maneira perdoando o próprio Hitler”- acusações absurdas que, nem na época nem hoje, encontram qualquer respaldo.
Cada vez que algum autor faz questão de explorar a “ligação de Karl Marx com o satanismo”, cada vez que se buscam os registros de Hitler com Sociedade Thule ou se insiste em afirmar que os revolucionários são satanistas, o que se faz no fundo é um apelo ao eterno conceito de “alteridade do mal” - a ideia, sempre conveniente ao homem, de que o mal não é um fenômeno que possa ser considerado “intrínseco” à ação humana..à hipótese, sempre útil, de que não foi o homem quem produziu os horrores de Auschwitz, do Gulag ou do Camboja, mas alguma “força sobrenatural”..algum “espírito obsessor” e primariamente maligno para quem rezavam Hitler, Stalin, Mao Zedong ou Pol Pot.
Claro é, portanto, que existe no discurso fundamentalista contra o satanismo, nos textos e artigos que insistem em relacionar comunismo com Aleister Crowley e sociedades secretas, uma grande armadilha a ser evitada. Uma vez “possuídos” por forças sobrenaturais ou vítimas de “entidades ou espíritos demoníacos” todo carrasco totalitário do século XX há de se tornar inimputável pelos termos da Lei Humana que pretende, entre nós e nesse mundo, jugá-los pelos crimes cometidos.
Lamento, dessa forma, ver surgir entre aqueles que querem o fim do PT no Brasil um grupo de pessoas que insiste no discurso do sobrenatural, das sociedades secretas, dos rituais malignos e das ligações com Satanás. Peço, encarecidamente, não seguirem essa linha de pensamento pois serve perfeitamente aos assassinos de prefeitos e mensaleiros que vão fazer dele um exemplo daquilo que chamam de “fanatismo religioso” e necessidade de um “estado laico”.
O PT, o Foro de São Paulo e o movimento revolucionário internacional são, meus amigos, forças desse mesmo mundo em que vivemos todos nós. Nada de transcendental existe naquilo que pregam ou fazem a não ser uma avidez pelo poder material que desafia o próprio conceito do princípio do prazer deixado por Freud. Claro há de ficar, portanto, que se não há ainda explicação psiquiátrica satisfatória para aquilo que essa gente fez no século XX, mais perigosa ainda é a alternativa de apelação às “forças sobrenaturais” pois vivemos numa sociedade que reconhece a psiquiatria, mas não o “catolicismo forense”.
Absolver legalmente um padre em função de suas convicções religiosas não é a mesma coisa que colocar na prisão um partido político inteiro em virtude da falta delas. O PT não pode ser réu num “Exorcismo de Emily Rose” pois, aí sim, o próprio “diabo” seria o juiz. Réu absolvido – Caso Encerrado.

Porto Alegre, 3 de novembro de 2014. 

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