"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sábado, 20 de dezembro de 2014

CLÉPTORSON E O CAPITAÇÃO REAÇÃO – UM DIÁLOGO SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA


Venho eu caminhando distraidamente pelo centro de Porto Alegre (com a sorte de não ter sido assaltado, pois é isso que acontece aqui com quem caminha distraído) quando, me aproximando de dois sujeitos conversando, reconheço como familiares as vozes..Fazia tempo que eu não as escutava. A aparência dos dois nada me dizia, mas as vozes..Ah, das vozes eu não tinha dúvida: conhecia! Já sentindo aquele constrangimento de quem vai ser identificado sem saber o nome dos interlocutores, escuto um deles se dirigindo a mim:
- Miltão ! Vem cá ! Lembra de mim? Sou eu: o Reação !
- Reação? - pergunto eu já encabulado
- Pô, Miltão ! João das Dores Reação dos Santos ! O Reação, lembra ??
- Ah...- digo eu meio sem jeito – você entrou para o Exército, né? - Faço a pergunta reparando no corte de cabelo militar e no fino bigode que é costume dos oficiais na caserna.
- Claro, Miltão - diz o outro – sou o Capitão Reação ! Tudo bem contigo?
- Tudo – respondo eu prestando atenção no outro sujeito, esse com uma enorme camisa vermelha de manga comprida pra fora das calças, barba, rabo de cavalo preso com atilho e o óculos de armação vermelha contrastando com o brinco em uma das orelhas.
- Miltão – diz Reação pra mim – Lembra do Cléptorson??
- Lembro – digo eu – nos encontramos esses dias – Cléptorson Trotsky de Jesus, né ?
- É isso mesmo - responde o Cléptorson – Estou trabalhando no Núcleo de Coordenação de Assessoria da Gerência de Apoio da Divisão de Planejamento de Assistência de Desenvolvimento da Diversidade de Gênero dos Trabalhadores da Saúde, lembra??
- Ah, sim – digo eu – já prevendo que boa coisa não sairia do encontro entre o Cléptorson, hoje alto funcionário de um Grupo Hospitalar que recebe verba diretamente de Brasília aqui em Porto Alegre, e um médico do Exército como o Reação.
- Miltão – diz o Cléptorson – você vai servir de “árbitro” na nossa discussão. Eu eu o Reação estávamos falando sobre nossas diferenças em termos políticos. Escuta só: olha só o que fazem com a cabeça desses caras no Exército..
- Reação – diz o Cléptorson se virando para o outro – você é ou não um cara de extrema direita?? Você não quer impor o catolicismo aqui pra todo mundo ?
- Eu?? - pergunta o Reação – Claro que não, pô ! Deus, cada um tem o seu ..
- Tá – diz o Cléptorson me olhando meio sem jeito – mas e quanto as drogas ??
- Bom – murmura Reação - isso precisa ser discutido com a sociedade “como um todo”..
- Putz, Reação, que saco! Só porque o Miltão tá aqui, né? Tá bom, mas e o homossexualismo, Reação, e o homossexualismo???
- Olha, Cléptorson – Diz Reação com calma – cada um faz o que quer com o seu corpo, né ?? Ninguém deve se meter nisso...
- Reação, Reação! – diz Cléptorson já se irritando – mas e o Aquecimento Global, Reação ??
- Inquestionável ! - responde o militar – não tenho dúvida que está acontecendo..
- Vou te pegar – explode Cléptorson – e quanto ao desarmamento, o que você me diz ?? Vai dizer que é a favor de todo mundo ficar sem direito a ter arma??
- Claro – responde Reação – menos trabalho pra gente e pra polícia..
- Não aguento mais! - berra Cléptorson – E quanto a uma intervenção militar?? Até eu que sou do PT reconheço o Mensalão ! Você vai dizer que é contra ??
- Mas é claro que sim ! - espanta-se o Capitão – Ora, onde já se viu? Tudo tem que ser feito dentro da Lei..Nada fora da Ordem Democrática ! O Exército evoluiu ! Isso é golpismo !
- Chega ! Cansei ! Reação, quer saber de uma coisa ? Tenho aqui uma ficha de filiação em branco – diz Cléptorson puxando da pasta uma folha timbrada com uma enorme estrela vermelha – aceita se filiar ??
- Não, obrigado – responde Reação com uma cara de decepção olhando a pasta..
- Que foi, ficou triste? - pergunta Cléptorson..
- Não..é que eu pensei que você ia me oferecer um “baseado” – e se afasta caminhando decepcionado pelo centro de Porto Alegre..
Cléptorson fica sem saber o que dizer..
- Com licença, Cléptorson – digo eu meio sem jeito – Preciso ir pra casa, meu cachorro, o Confúcio, só come ração de passarinho..e não aceita de qualquer um...

Para querida Tais Wolffenbuttel Jaeger,

Porto Alegre, 20 de dezembro de 2014.

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