"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O Rato e a Vela


Milton Pires

Cinco horas da manhã, da tarde ou da noite...tanto faz - pensou Santos com raiva. Abril de 1918, Ypres. Front Ocidental. João Manoel Santos, cabo do Corpo Expedicionário Português, deu-se conta de que estava sozinho no fundo da trincheira inundada até a altura dos joelhos. Havia portugueses, ingleses e alemães mortos por toda parte. Ele não conseguia se mexer da cintura para baixo. Um fragmento de obus havia atingido sua espinha. Por baixo de uma manta que cobria suas pernas, e que havia tomado de um soldado escocês, podia perceber pequenos movimentos. São os ratos - disse o cabo a si mesmo notando, ao lado da única vela que iluminava a cena, um deles parado, completamente imóvel, só dando sinais de vida pelos bigodes.
Olhando ao redor, Santos viu que um corpo se mexia. Tentou alcançar, para se proteger e sem sucesso, uma baioneta que estava muito longe, mas já era tarde: um alemão estava ali e agora se levantava.
Parado ! - berrou Santos em português.
A resposta veio em alemão – Camarada ! Camarada !
Sucedeu-se uma troca de frases e insultos até ficar claro que francês era o idioma que ambos compreendiam.
Meu nome é Hans Dieter – disse o alemão num francês carregado. Estou cego. Gás – e calou-se.
O silêncio voltou a tomar conta de tudo. Subitamente, os dois escutaram uma voz em inglês. Às gargalhadas, alguém dizia lá em cima – Vejam só: um está cego e outro paralítico. Os dois me escutam e nenhum me compreende. Que bela oportunidade.
Depois de gritarem, de implorarem, de suplicarem por ajuda, os dois inimigos lançaram nos idiomas de Goethe, Camões e Balzac todas as ofensas e palavrões que conheciam contra o inglês. Nada adiantou. Foram deixados ..
Sairemos daqui juntos – disse o alemão. Ainda posso caminhar e tenho forças para carregá-lo. Você enxerga e poderá me guiar.
O cabo, percebendo que os disparos de artilharia haviam parado por completo, aceitou a proposta.
Vagaram por mais de uma hora naquela que era conhecida como “terra de ninguém” até que os assobios, vindos do céu e que antecedem as explosões, recomeçaram.
Dieter parou. Ajoelhou-se e colocou Santos no chão. As explosões eram cada vez mais próximas mas de súbito cessaram.
Os dois soldados levantaram o rosto que até então estava contra o solo. Apesar da noite fechada, o português viu que a poucos metros, brilhava a luz de uma vela. Contou ao alemão e pediu ajuda para ser arrastado até lá. Ao lado da luz estava o enorme rato cinza que viu na trincheira. Parado. Só os bigodes se movendo. Olhos pretos enormes dentro dos quais Santos viu a figura de uma moça muito bonita e muito pálida que foi crescendo, crescendo... até que o próprio rato se tornou ela mesma.
Quem é você? - perguntou Santos apavorado e segurando o alemão cego para que não se aproximasse mais daquilo que ele mesmo pensava ser o demônio.
A moça respondeu com duas vozes ao mesmo tempo. Uma em perfeito português; outra em alemão sem sotaque:
- Eu sou a Morte. Vocês estão livres. Podem ir...

para o meu pai..

Porto Alegre, 28 de fevereiro de 2015.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua mensagem será avaliada pelos Editores do Ataque Aberto. Obrigado pela sua colaboração.