"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sábado, 31 de outubro de 2015

'Freud com os Escritores' explora relação da psicanálise com a literatura; leia trecho

'Freud com os Escritores' explora relação da psicanálise com a literatura; leia trecho:

Divulgação
As relações da psicanálise com a literatura são o tema de "Freud com os Escritores"
As relações da psicanálise com a literatura são o tema deste livro
Leia mais (10/31/2015 - 11h30)

Freud com os escritores

J.-B. Pontalis e Edmundo Gómez Mango


As leituras preferidas de Sigmund Freud e as relações da psicanálise com a literatura são o tema deste livro. J.-B. Pontalis e Edmundo Gómez Mango se detêm sobre alguns dos mais célebres escritores europeus a fim de refletir sobre o diálogo que Freud estabeleceu com a obra de cada um deles. 

Meticuloso e apaixonado leitor de Shakespeare, Goethe, Schiller, Hoffmann, Heine e Dostoiévski, o criador da psicanálise também manteve contato pessoal ou se correspondeu com autores de sua época, como Arthur Schnitzler, Thomas Mann e Stefan Zweig. 

A crítica literária e a genealogia dos conceitos psicanalíticos se entrecruzam nos esclarecedores ensaios de Pontalis e Mango, que também examinam como a tensão entre ciência e literatura marca a escrita e o pensamento freudianos. 

É essa mesma tensão que faz do autor de A interpretação dos sonhos, além de um decifrador genial da alma humana, um dos maiores escritores de todos os tempos. 

Trecho de Freud com os escritores
Durante toda a sua vida, Freud amou os livros. Ele próprio qualificou de "íntimas" suas relações com eles. Desde a mais tenra idade, comprava bateladas nos livreiros de rua vienenses - parece que seu pai o censurou por isso. Mais tarde, quando foi obrigado a exilar-se, levou consigo a mulher, Martha, a filha, Anna, a fiel criada Paula, o médico pessoal, o cão, um chow-chow, sua coleção de estatuetas... e parte de sua biblioteca. Os livros faziam parte de seu círculo mais querido.
Poucos dias antes de morrer, foi para um livro que voltou sua atenção. Não era qualquer um -La peau de chagrin [A pele de onagro], de Balzac: "Era justamente o livro de que eu necessitava; fala do encolhimento e da morte por inanição".
Sua biblioteca em Viena continha mais de 2 mil volumes. Foi catalogada após sua morte e dividida em duas partes: uma delas, a mais importante, foi despachada para Londres, para sua casa (alugada) em Maresfield Gardens, nº 20, que viria a ser o Freud Museum, onde os visitantes podem admirá-la; a outra foi vendida a um livreiro, até ser oportunamente resgatada pelo New York State Psychiatric Institute.
Em que consistia a biblioteca? Em obras pertencentes a todos os gêneros: ciências do espírito e da natureza, religiões, história, filosofia, etnologia, mitologia, biografias, relatos de viagem, literatura alemã e estrangeira. Alguns devem ter lhe servido de documentação para os próprios livros: por exemplo, A essência do cristianismo, de Feuerbach, para O futuro de uma ilusão, osCadernos de Leonardo da Vinci para Uma recordação de infância...
Naturalmente, Shakespeare tinha o melhor quinhão: edições inglesas e alemãs. Dostoiévski, cujos romances admirava embora depreciasse o homem, demasiado neurótico a seu ver, é igualmente bem-representado. Surpresa: as uvres complètes de Flaubert na edição Conard (dezoito volumes), Maupassant (vinte volumes) e Anatole France (21 volumes ilustrados). Inúmeras e caras aquisições de bibliófilo.
Dentre os autores de língua alemã, Goethe, Heine e, em lugar de destaque entre os escritores contemporâneos, Thomas Mann, Arnold e Stefan Zweig. Curiosamente, nenhum sinal de Schnitzler, a quem, não obstante, considerava o seu "duplo".
Em certos livros, há frases sublinhadas. Às vezes, encontramos também observações na margem: "Não, não! Burrice. Estúpido". Atento e exigente, o leitor Freud não era do tipo que lia na diagonal.
Ao percorrer o catálogo, como não ficar impressionado com a variedade dos interesses de Freud, sua curiosidade insaciável, a extensão de sua cultura? E como não se perguntar: ele, que escreveu tantos livros, tantos artigos, que enviou tantas cartas a seus inúmeros correspondentes e teve em análise tantos pacientes, sim, como encontrou tempo para ler tantos livros? A resposta poderia perfeitamente ser esta: ele era um homem do livro. Talvez para ele, como o sonho interpretado em sua obra inaugural, a Traumdeutung, que ele chamava de Traumbuch(livro do sonho, ou livro-sonho), talvez jamais terminássemos de ler o mundo. Um mundo que, depois de Babel, era povoado por todo tipo de línguas e dialetos, um mundo cuja língua secreta se chamava inconsciente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua mensagem será avaliada pelos Editores do Ataque Aberto. Obrigado pela sua colaboração.