"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

PARA PSIQUIATRAS: ENTREVISTA EM 2015 COM DOENTE MENTAL QUE FEZ XIXI E COCÔ NA FOTO DO BOLSONARO

Entrevista – PRISCILLA TOSCANO – COLETIVO PI

Vou abrir a seção de Entrevistas com uma xará Priscilla Toscano.
São Paulo, SP - 09/02/2015 - Performance-Contornos, do Coletivo Pi, realizada na tarde de 09/02 no Dafam, Diretário Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, no Centro de São Paulo. Foto: Rodrigo Dionisio
São Paulo, SP – 09/02/2015 – Performance-Contornos, do Coletivo Pi, realizada na tarde de 09/02 no Dafam, Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, no Centro de São Paulo. Foto: Rodrigo Dionisio
A Priscilla é atriz, performer e produtora, de 31 anos, nascida em São Caetano do Sul, mas criada em São Bernardo do Campo, São Paulo. É formada em Artes Cênicas pela UNESP, e uma das fundadoras do Coletivo PI e do grupo Desvio Coletivo.
Bati um papo muito interessante com a Priscilla e divido aqui com vocês:
Pri fala um pouquinho de você: Desde pequena eu azucrinava minha mãe porque queria fazer teatro. De 12 para 13 anos, ela me matriculou numa oficina livre, da Prefeitura de Diadema, eu fazia cursos na prefeitura ou no clube perto de casa. Fui fazendo estes cursos, fruto de uma dessas oficinas surgiu um grupo amador o “Sine qua non”, onde fiz umas seis peças. O grupo era amador, mas muito organizado. Uma das peças conseguimos colocar no SESC Pompéia. Ai chegou um momento da vida onde eu precisava escolher o que fazer, fiz Secretariado no Ensino Médio, porque tinha que escolher um curso técnico junto com o ensino médio. Na minha classe só tinha mulher, convivi muito no meio feminino. Mas nunca parei de fazer teatro, fazia nos fins de semana. Consegui um estágio na General Motors, fui efetivada, fiquei três anos. Quase escolhi fazer Secretariado na faculdade, mas decidi por Artes Cênicas.
Como surgiu o Coletivo PIConheci a Pamela quando entrei na UNESP, estávamos na mesma turma. O PI vem de uma construção, eu e Pamela nos conhecemos há 10 anos, e são dez anos de uma amizade muito intensa, ela foi a primeira pessoa que se aproximou de mim na faculdade, foi uma afinidade instantânea. Durante a faculdade já começamos a esboçar ideias para trabalhar, para conseguir grana. A maior afinidade que temos é a cabeça empreendedora. Ok tem o mundo acadêmico, mas também temos um lado prático. Ficávamos na teoria até a página 20, depois tinha que colocar em ação. Quando a gente se formou em 2008, tínhamos vontade de fazer algo. Não sabíamos o que era intervenção urbana. A gente vem do teatro e de uma escola careta. A gente estudava teatro até os anos 50, parava no teatro do absurdo. Fala-se muito pouco em performance. Mas tivemos um amigo que estava dois anos na nossa frente da faculdade, o Júlio Razec, que já trabalhava com performance, é um grande estudioso do assunto. Se não fosse ele, o nosso contato com a performance teria sido muito tardio. Outra coisa que me ajudou a não ficar presa ao teatro foi um intercâmbio que eu fiz, pela faculdade, em Santiago de Compostela. Fomos eu e a Natália, que hoje está no PI. Voltei com outra cabeça. Em 2009 eu e a Pamela queríamos fazer algo e fomos atrás de um espaço, ainda presas na ideia de que um grupo tem que ter uma sede. A gente foi batendo em algumas portas até que chegamos num clube na Zona Norte de São Paulo e conseguimos uma sala. A sala era um depósito! A gente desocupou e limpou a sala. Íamos todos os dias para faxinar e revitalizamos aquele espaço. Acabou virando a sede do coletivo PI.
Como surgiram os primeiros trabalhos do PI? A nossa sede ficava perto da Rodoviária Tietê, a gente tinha que passar por ela para chegar ao PI. Queríamos fazer algo no entorno e a rodoviária era uma possibilidade. Ali surgiu de fato o Coletivo PI, porque estávamos indo para além da cena, usando de várias ferramentas para interferir. A gente começa então a transitar neste lugar de performance. Ai rolou. Em paralelo a este experimento, montamos um espetáculo para ocupar o espaço, mas a peça já começava na rua. Ficamos dois anos neste espaço. Em 2010 entrou a Natália. A gente foi se virando, dava oficina de graça para criança, adolescente e terceira idade. A gente precisava de dinheiro e pensávamos como a gente podia levantar o dinheiro para manter o espaço. Surgiu o Sarau do PI. A sala tinha virado um polo cultural, existia uma demanda, as pessoas iam até lá e perguntavam se a gente tinha algo a ver com o Teatro Alfredo Mesquita que estava fechado na época, e até por conta desta demanda a gente começou a fazer um movimento chamado Cena Norte, uma rede de artistas da Zona Norte. O Sarau comportava tudo o que cabia no espaço. A gente vendia bebida, mesmo não podendo – risos – passava o chapéu, mesmo sendo pouco a gente conseguia manter os custos do espaço e das atividades. A gente começou a fazer a roda girar, com muita dificuldade mesmo.
Você se dedica exclusivamente a atividade artística? Em 2010 eu e Pamela resolvemos fazer o concurso para dar aula na Prefeitura. Foi um plano. Se a gente passasse, a gente ia escolher uma escola na Zona Norte, perto da sede. Era uma forma da gente se manter, sem abandonar as atividades do PI. A gente passou. Eu exonerei ano passado.
E como caminhou o financiamento para os trabalhos do Coletivo? A gente sempre foi se inscrevendo nos editais, tentamos vários, em paralelo as atividades que iam acontecendo no PI. A gente nunca esperou ganhar um edital para começar algo. A rodoviária entrou em contato para uma nova intervenção, começamos a ganhar cachê, mesmo que pouco. A gente foi vendo que a iniciativa privada, se você souber lidar com ela, abre portas também. O primeiro edital nós ganhamos em 2011, foi o FUNARTE, Artes na Rua. A gente inscreveu um projeto de 50 mil no módulo de 20 mil. Cortamos o nosso cachê, isso foi um erro. Mesmo que pouco o artista tem que ganhar, tem que espremer no orçamento o cachê do artista e não cortá-lo. Depois disso a gente começou a engrenar, o projeto é um exercício. Quando você escreve um projeto para um edital, e não ganha, a tendência é abandonar, e isso é um erro, tem que insistir, ver aonde pode melhorar. O grupo escreve junto, mas cada uma tem um talento. A Pamela, por exemplo, escreve super bem, a Natália é muito boa na parte estética, faz a diagramação do projeto, e pro aí vai. Hoje o grupo não é mais três, somos seis, tem a Chai, o Jean e a Mari. Não ganhamos tantos prêmios assim, ganhamos o Proac primeiras obras, o edital de residência artística da Casa das Caldeiras, que não dá dinheiro, mas você pode ocupar o espaço. O que pra gente foi ótimo, porque tínhamos perdido a sede. Nota: o coletivo também foi contemplado pelo Prêmio Funarte Mulheres nas Artes Visuais, edital Funarte CEU das Artes e, recentemente, pela segunda vez o prêmio Funarte Artes na Rua 2014.
São Paulo, SP - 16/06/2015 - Intervenção Na Faixa, do Coletivo Pi, realizada em parceria com o Sesc nas imadiações da unidade Santo Amaro na manhã de hoje (16/06). Foto: Rodrigo Dionisio
São Paulo, SP – 16/06/2015 – Intervenção Na Faixa, do Coletivo Pi, realizada em parceria com o Sesc nas imediações da unidade Santo Amaro na manhã de hoje (16/06). Foto: Rodrigo Dionisio
Mas apesar de ganharem poucos prêmios e terem pouco tempo de vida, o grupo é bem conhecido! Isso é uma coisa importante de falar, é importante fazer a divulgação, ter facebook, uma página, insistir na divulgação. O facebook tá ai para isso é uma ferramenta fenomenal, as pessoa podem saber o que você está fazendo. Isso não tinha antes! Começamos a fazer também parcerias com o SESC, que é hoje a instituição que mais apoia a cultura neste país. Ajudou muito! E também nunca paramos de insistir na empresa privada. Fizemos um projeto com a Absolut. No começo ficamos receosas, mas tem que saber lidar. O projeto era incrível, em nenhum momento o que fizemos ficou associado à bebida alcóolica ou baladinha, o projeto tinha muita consistência. Há pouco tempo comecei a me dedicar exclusivamente ao grupo, mas, por enquanto sou a única, tem uma ansiedade de querer ver o grupo todo fazendo só isso e vivendo do que gosta, mas tem um tempo para isso acontecer, é um amadurecimento mesmo, é uma empresa.
Muitas vezes o artista não gosta de ver o seu trabalho associado a produto, empresa, como você lida com isso? Os artistas têm um pouco de medo de falar isso, vem como uma negatividade, então sou funcionário, a gente tem que encontrar um equilíbrio nisso, isso é uma discussão que não tem fim. Acho que o que da uma harmonia para o PI é que os seis tem essa mentalidade: encontrar um equilíbrio de qualidade de pesquisa e criação artística, que respeite nossos anseios individuais e a questão empresarial, de conseguir manter essa plataforma, porque se ela não existir não tem sentido. Tempo custa dinheiro, a gente se encontra toda semana para fazer um trabalho de corpo e um grupo de estudos, mas nos outros dias, cada um fica em casa para fazer a parte da produção. O ideal seria se encontrar mais? Com certeza, o ideal é o que a gente sempre tá buscando, mas hoje é o que podemos fazer. A produção da muito trabalho e tem que dividir as atividades com outras coisas, por enquanto nem todo mundo tá dedicado exclusivamente ao grupo.
Como surgiu o nome PI? Eu e a Pamela sempre fomos muito práticas. A gente queria um nome que não carregasse tanto simbolismo, foi o primeiro nome que veio na minha cabeça: performance e intervenção, PI. É um nome curto, que tem um som. Depois vieram os significados, um dos que mais gosto é que PI é o coeficiente da matemática que calcula a circunferência. Quando a gente faz uma roda, um círculo, a gente tá numa formação geométrica, onde todos podem se ver, estão todos na mesma posição, é democrático.
Porque intervenção urbana? Quando a gente começou a fazer intervenção na rua a gente viu a potência artística que isso tem. O espaço fechado é bem vindo, mas nunca foi o foco principal do PI. Ficar enquanto artista restrito ao espaço fechado é se restringir ainda a um espaço burguês, porque quem tem acesso a esses espaços? É uma posição política da gente. É isso que nos move enquanto artista poder trazer esse novo olhar não só para a cidade, mas para o comportamento do sujeito da cidade. Às vezes a pessoa se deparar com aquela imagem por um instante, mas talvez, aquele instante, tenha mais poder do que se ela ficasse três horas num teatro. Não é competir com as linguagens, mas esse é o nosso barato. A gente quer estar onde a vida acontece, e a vida acontece na rua.
E vocês já tiveram alguma dificuldade por ser mulher? A gente nunca teve uma história muito polêmica, já teve gente que não reagiu bem a algumas situações. Na “casa de Paulo”, performance que montávamos uma casa na rua, as pessoas ficavam assustadas, porque eram três mulheres levantando peso, fazendo esforço físico. Ouvimos também cantadas e elogios, fius fius da vida, “vai trabalhar” e coisas assim.
Obrigada Pri!

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Sou atriz, advogada e gestora cultural. Reuni as três atividades neste espaço virtual, para criar um lugar de divulgação e compartilhamento de trabalho das mulheres artistas. Acredito na importância deste espaço para destacar essas mulheres e sua  relação com a arte. Também acredito na profissionalização da(o) artista e da(o)  produtor(a) cultural, por isso trago no blog informações jurídicas, que estão  envolvidas na atividade artística, além de informações de produção e gestão cultural.  Idealizei e  executei o seminário “Mulheres Artistas na Ditadura”, na Caixa Cultural São Paulo, em 2014

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