"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sábado, 25 de fevereiro de 2017

5 vezes em que “progressismo” e “povo” não couberam na mesma frase

5 vezes em que “progressismo” e “povo” não couberam na mesma frase:

É senso comum que a esquerda representa o povo, os pobres, os fracos e os oprimidos. Os mapas de votação das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro nas últimas eleições municipais, contudo, parecem desmentir essa percepção, à medida que os candidatos do PT e do PSOL tiveram seus melhores desempenhos em bairros de altíssimo IDH, e foram amplamente rejeitados nas periferias e subúrbios.
Esse movimento não é inesperado: o povo costuma ser mais pragmático que suas elites. O voto puramente ideológico é um luxo reservado em geral aqueles que já venceram a luta pela sobrevivência. Quando o preço da gasolina, da energia elétrica e aquelas 60 parcelas do carro popular pressionam o orçamento, em geral não sobra muito tempo pra tentar salvar o mundo, e o sujeito acaba votando naquele que parece mais conectado com a realidade. Isso ficou claro na trajetória dos governos petistas nos últimos 13 anos: a parte a absoluta inépcia gerencial e a corrupção generalizada, Lula soube como poucos ler os anseios dos mais pobres e ofereceu acesso ao mercado de consumo através de crédito barato, o que acabou impactando de maneira positiva a atividade econômica e o mercado de trabalho. Já Dilma, desde seu primeiro governo, foi capturada por ONGs, sindicatos e grupos de interesse, cujos interesses não só não coincidiam como também conflitavam com o interesse das massas. O resultado foi uma reeleição duríssima, calcada no maior estelionato eleitoral de que se tem notícia, e um governo que viu qualquer resquício de apoio popular derreter no asfalto em menos de 30 dias.
Analisando eventos recentes, se nota que a falta de apoio popular a propostas progressistas (globalistas, ambientalistas, desarmamentistas, feministas) é mundial é crescente, e cada vez menos “povo” e “esquerda” cabem na mesma frase. Da mesma forma, a despeito de pregar maior participação popular como mantra, por onde quer que a esquerda chegue ao poder o que se vê é uma elite de intelectuais e acadêmicos cheios de fórmulas e planos se acastelando em suas bolhas ideológicas e forçando suas agendas goela abaixo do povo. Vejamos 5 vezes em que ficou claro que, a despeito do discurso, a esquerda não tem nada a ver com o povo.

Referendo sobre o estatuto do desarmamento

O art. 35 da Lei 10.826/2003 estabelecia a proibição total da comercialização de armas de fogo e munições em todo o território nacional. O estatuto era considerado uma “evolução” da Lei 9.437/97, produto de mais uma década de pressões da ONU por um maior controle e restrição de comercialização de armas de fogo em nosso país. Pela gravidade da proibição, a própria lei fixou a data de outubro de 2005 para realização de um referendo – isso a despeito da ONG patrocinadora da legislação, a Frente Brasil Sem Armas, e do próprio Partido dos Trabalhadores, que não pretendiam consultar o povo acerca do tema. No fim, a base governista acabou concordando com a realização do referendo, mas apenas 3 semanas foram concedidas para a realização de campanhas de esclarecimento de ambos os lados – o que tendia a beneficiar o SIM, visto que as pesquisas de véspera apoiavam amplo apoio popular à proibição (o Ibope apontava 55-45, o Datafolha 57-43). Para os desarmamentistas, tratava-se apenas de consulta pro-forma, visto que era óbvio que o povo era “da paz”.
O NÃO venceu com quase 64% dos votos. Como sempre, contudo, a vontade popular acabou sendo desprezada. Sucessivas “regulamentações” do estatuto tornaram, na prática, quase impossível a aquisição de arma de fogo, já que mesmo preenchidos os requisitos objetivos e subjetivos, é necessário demonstrar a “necessidade” da aquisição, não valendo a mera alegação de defesa pessoal. Os pedidos de registro de armas são negados em até metade das vezes. Os pedidos de porte costumam ser negados em 100% das vezes. Hoje há apenas um punhado de civis em todo o país que têm autorização para circular armados.

Referendo sobre a constituição europeia

A Comunidade Econômica Europeia, a despeito de criada como uma união aduaneira, já nasceu com pretensões federalistas. Jean Monet, seu idealizador, nunca escondeu sua pretensão de suprimir as fronteiras dos estados membros. A Constituição Europeia, um tratado destinado a substituir todos os tratados constitutivos anteriores, foi assinada pelos chefes de estado do bloco em outubro de 2004. Dentre outras coisas, estabelecia um Ministro das Relações Exteriores do bloco, uma bandeira e um hino únicos, e a primazia da legislação unionista sobre as legislações nacionais dos respectivos estados membros, que também terceirizariam a defesa de seus territórios ao comissariado europeu, além de parte da administração da justiça criminal (previa-se inclusive a criação de um Ministério Público supranacional)
O plano era submeter a constituição à aprovação popular. Mas em 29 de maio de 2005 55% dos franceses pronunciaram um sonoro NÃO à supressão de suas fronteiras. 3 dias depois foi a vez de 62% dos holandeses fazerem o mesmo. Diante do resultado “inesperado” (essa palavra será repetida muito nesse texto), seguiu-se uma série de cancelamentos de referendos que já estavam agendados na Dinamarca, Irlanda, Polônia, Alemanha e Inglaterra.
Mais uma vez, a intelligentsia arrumou um jeito de dar by-pass na votade popular. Em 20 de fevereiro de 2008 o Parlamento Europeu promulgou o Tratado de Lisboa, que tem o mesmo espírito da rejeitada Constituição Europeia. O tratado foi ratificado pelos estados membros sem que nenhum cidadão europeu, a parte a burocracia da EU, fosse formalmente consultado.

BREXIT

O Reino Unido sempre foi um membro recalcitrante do projeto de integração europeia. Ingressou na antiga CEE tardiamente, apenas em 1973 (é bem verdade que um dos motivos pelos quais não ingressou antes foi o veto de De Gaulle em 1963). Foi um signatários do Tratado de Maastricht em 1992, que fundou oficialmente União Europeia, mas a ideia de abrir mão de sua moeda em favor do Euro nunca foi sequer cogitada.
O inglês típico é um sujeito que sabe ser herdeiro daquilo que já foi o maior império da história, parte do povo que inventou o a monarquia constitucional, o bicameralismo (primeira vez em que o povo pôde efetivamente participar do processo de tomada de decisões, isso há 400 anos), a democracia liberal e a industrialização. A insularidade da Inglaterra reflete-se também no caráter do inglês, que em sua maioria não se considera europeu, mas somente – inglês. Isso é reforçado pela história, já que o continente via de regra sempre foi fonte de problemas para os bretões – desde a invasão normanda até a segunda guerra mundial, passando por Napoleão.
David Cameron, primeiro ministro conservador, bancou a realização do referendo pela saída do Reino Unido da Europa unificada como compromisso de campanha por sua reeleição. Sim, Cameron era conservador, mas todo o establishment era pela manutenção da ilha na união, e o que se viu foi uma rara aliança entre trabalhistas e conservadores pelo “remain” (a exemplo do que se viu no referendo de 1975), com alguns “loucos” como Boris Johnson, o ex-prefeito de Londres, e Nigel Farage, membro do parlamento europeu, advogando pelo “leave”. O Em fevereiro de 2016 Cameron anunciou a realização do referendo em junho. Como sempre, pesquisas de véspera apontavam, vantagem para o remain, na mediana de 55%. O resultado final: 52%-48% pelo leave. “Inesperado”.
Nos dias que se seguiram a mídia, que havia tomado partido abertamente pelo remain, alimentou a histeria coletiva. Mas enquanto a GloboNews entrevistava jovens ingleses chorosos dizendo que iriam requerer cidadania alemã, a empresa que administra o Eurotúnel alertou que haveria aumento da pressão imigratória na região de Calais, na direção da Inglaterra. Isso mesmo, as pessoas estavam fugindo PARA a Inglaterra, e não DA Inglaterra. A hecatombe do Brexit durou 2 dias, no que deve ter sido a crise econômica mais curta de toda a história: em 4 de outubro a London Stock Exchange havia não só recuperado as perdas como atingia a máxima do ano, e o Banco da Inglaterra deve nos próximos dias cortar os juros ao menor patamar desde 2009.
Como se sempre, já se notam manobras para ignorar a vontade popular. A Suprema Corte decidiu ontem, 15.11, que o resultado do referendo não é vinculante, e o Parlamento é soberano na questão, o que deixa em aberto a possibilidade da Câmara dos Comuns simplesmente fingir que não existe povo na Velha Albion (embora as consequências disso sejam potencialmente catastróficas). A ver.

Acordo de paz com as FARC

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia são uma organização paramilitar que conta hoje com cerca de 18.000 homens armados que controlam parte significativa do território do país. Foram criadas em 1964 com viés marxista-leninista e levantando bandeiras anti-imperialistas, no rastro e inspiradas pela Revolução Cubana. Durante toda a sua existência financiou-se à base de mineração ilegal, extorsão e tráfico de drogas. Todos os governos de esquerda da região negaram-se a reconhecer as FARC como organização terrorista. Governos como o venezuelano chegaram a apoia-la abertamente.
O atual presidente colombiano, Juan Manoel Santos, concluiu um acordo de paz em 25 de agosto de 2016, numa cerimônia em… Cuba. Esse plano incluía a previsão de uma reforma agrária com ampla participação e controle das FARC (parecido com o que se vê no Brasil, em que as terras desapropriadas são entregues não às famílias, e sim ao MST), a criação de cadeiras extras no parlamento destinadas a membros das FARC, com sua transformação num partido político, a criação de um tribunal de exceção apenas para julgar os crimes das FARC, e anistia relativamente ampla.
Em 2 de outubro, o acordo foi rejeitado por referendo por 50,2% dos votos válidos. A maioria dos colombianos não deseja perdoar nem conferir espaço político a uma organização terrorista. Dessa vez, Juan Manoel Santos optou por ignorar o resultado das urnas sem nenhuma cerimônia, e já anunciou em 2 de outubro que quem implantará o acordo será o congresso, sem a realização de mais consultas populares.

Eleição de Donald Trump

De longe a mais divertida dessa lista, a eleição de Donald Trump ainda mantém a mídia mainstream chorando em posição fetal enquanto tenta entender porque claramente ninguém mais lhe dá a menor bola.
Trump anunciou sua candidatura em meados de 2015, em meio a outros 16 contendores republicanos, gente como Jeb Bush e Marco Rubio. Foi galgando as primárias e impondo-se como candidato, a medida em que os campos progressistas dos EUA e do mundo faziam dele material de chacota. Em maio, a GloboNews, cuja cobertura internacional resume-se a copiar e colar o que dizem a CNN e o NYT, promoveu um “debate” (entre aspas mesmo, porque a TV brasileira tem o estranho hábito de promover discussões em que todos estão de acordo tanto no essencial quanto no contingente). Os participantes, que iam de professores de sociologia da USP a analistas políticos da Unicamp, dentre outros, riam gostosamente do Trump, esse palhaço caipira reacionário e ignorante. Todos (inclusive a mediadora) concordavam não só que Hillary “trucidaria” Trump nas eleições (o termo utilizado foi esse mesmo), como ainda que Bernie Sanders teria algum cargo importante no futuro governo Hillary, da mesma forma que ela própria teve no governo Obama. Mais uma vez todos acharam ótima a ideia de um socialista na Casa Branca (pra pôr um pouco de ordem naquele nosso pobre vizinho ao norte), apenas lamentando que não fosse já como presidente).
Em 19 de julho o NYT assegurou que Hillary tinha 76% de chances de bater Donald Trump em novembro. Isso foi dois dias antes da convenção republicana.
Em 28 de julho, dia da convenção democrata, nova pesquisa com a mesma metodologia já indicava chance de 69% para Hillary, queda de 7% em uma semana.
Diante da queda nas pesquisas, o NYT, escreveu quase um anúncio publicitário para Hillary, tentando entender porque o eleitor e a vida real não se comportam de acordo com suas previsões e prognósticos:
“Repórteres que estiveram em Cleveland logo formaram um consenso de que a convenção de Trump havia sido ‘um grande desastre’, como alguns deles escreveram. Trump escreveu na noite de terça-feira no Twitter que sua convenção era “muito mais interessante”. Talvez mais para fascinante, como pode ser olhar um acidente na estrada.
O que a imprensa de notícias viu como um grande desastre, os apoiadores de Trump viram como renovador, uma atitude de falar ‘o que deve ser dito’. E pelo menos dois respeitados institutos de pesquisa, o CNN/ORC e o USC Dornsife/Los Angeles Times, mostraram um aumento repentino para Trump.
Trump disse que isso provava que ele obtivera ‘o resultado pretendido’ de sua convenção. ‘Consegui o maior salto [nas pesquisas]’, disse.
As pesquisas são ainda mais notáveis se você considera o seguinte: Hillary e os Super PACs que a apoiam gastaram US$68 milhões em propaganda na TV, em comparação com os menos de US$6 milhões de Trump e seus grupos de apoio, de acordo com a empresa de monitoramento de publicidade Kantar Media.”
O que nunca foi visto no noticiário brasileiro e internacional é que Hillary tinha 56% de rejeição, era vista como desonesta, não confiável, volúvel e falsa. Barack Obama (outro que sempre esteve longe do arquétipo de Mister Simpatia oferecido pela mídia) tentou vendê-la como “qualificada e experiente”, mas como Secretária de Estado ela acumulou uma folha corrida de escândalos, e em dois mandatos como senadora mudou de opinião diversas vezes, ao sabor das circunstâncias.
Dias antes das eleições, uma igreja Batista frequentada por negros foi queimada em Greenville, e os criminosos convenientemente picharam “Vote Trump” na fachada. Sem que nada houvesse sido apurado nem ninguém identificado, a mídia já chamava os agressores de “supremacistas brancos” e “neonazistas ultra conservadores”.
Uma hora antes do encerramento da votação, pesquisa do NYT dava 85% de chances de eleição de Hillary. Encerrada a apuração, Trump havia levado a maior parte dos swing states como Florida, Ohio, Wisconsin e Michigan (onde Hillary sequer havia pisado durante a campanha, tamanho o excesso de confiança), e havia tido uma votação sólida entre mulheres e latinos, o eleitorado que era de “propriedade” dos democratas. O resultado, uma vez mais, foi “inesperado”. Nos dias que se seguiram pulularam petições e abaixo assinados urgindo os delegados do colégio eleitoral a desprezarem o resultado do pleito e elegerem Hillary Clinton.
Os próximos meses provavelmente ainda verão a derrota do socialista François Hollande na França, o presidente mais impopular da história da Quinta República, e de Angela Merkel na Alemanha, que já sofreu uma fragorosa derrota nas últimas eleições estaduais.
Hoje, no mundo, não existe nada mais impopular que os autointitulados “defensores do povo”.

Rafael Rosset é advogado há 15 anos, especialista em Direito Ambiental, palestrante e articulista; perfil no Twitter; e no Facebook. Escreve no Implicante às quartas-feiras.

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