"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Interessante artigo sobre a Guerra Terrorista

Interessante artigo sobre a Guerra Terrorista:



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Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

Um artigo interessante: O Novo Método da Guerra Global é a Guerra Terrorista. Exemplos na Líbia-Síria-Ucrânia. O autor é um tenente-coronel​reformado russo, que passou mais de um ano na Síria, com as tropas da Guarda Republicana, como repórter envolvido em filmagens. Relata sua experiência, tendo em vista a aplicação da experiência líbio-sírio-ucraniana à própria Rússia.
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Permitam-me, antes de tudo apresentar-me. ​Sou um tenente-coronel ​reformado. ​Passei um pouco mais de um ano na Síria, com as tropas da Guarda Republicana​, como repórter militar voluntário. Eu estava envolvido nas filmagens e, é claro, vendo como o exército sírio operava, que problemas surgiam, e ... ​eu já manifestei isto antes e gostaria de ​repetir, para que possa ser discutido por pessoas que não estejam diretamente relacionadas com este assunto, para que possam olhar para as possíveis ameaças, em função da experiência síria, que podem surgir para nós. Para olharem para a ​relevância da experiência Líbia-Síria, e agora, para a experiência líbio-sírio-ucraniana.
Um dos nossos teóricos militares disse: "Hoje, a ciência militar russa moderna não nos dá uma compreensão clara a que uma guerra moderna será semelhante. Então, vamos preparar-​nos para qualquer coisa". Em poucas palavras, é como isto é. Na realidade, se a ciência militar não nos dá essa resposta, é lamentável. De fato, a resposta existe, é absolutamente claro que tipo de guerra é mais provável hoje.
Hoje, o conceito de guerra moderna mudou completamente, e isso é devido às seguintes razões: o desenvolvimento de um confronto entre a URSS e os Estados Unidos levou a que os meios de destruição se aperfeiçoassem continuamente e se tornassem mais complexos. Daí que os meios de destruição tornaram-se mais caros do que os alvos a serem destruídos e a guerra, em tais condições, tanto na época soviética quanto na pós-soviética, não é lucrativa. Acho que todo mundo vai concordar que a guerra é um conceito econômico, tem causas econômicas. Como resultado da guerra, cada lado está tentando alcançar algum resultado que pode então ser verificado na economia.

E hoje a situação é tal, que um exército moderno, numa agressão contra qualquer Estado, não pode contar com perdas aceitáveis. Estas, mesmo sem mencionar o fato de uma possível retaliação com armas de destruição em massa, serão elevadas a ponto de, definitivamente, serem inaceitáveis, até mesmo no caso de um país forte contra um fraco, além de economicamente desvantajosa. As perdas serão tão grandes (perdas especificamente econômicas) que a totalidade da guerra está perdida. Isso foi mostrado na Iugoslávia, onde a OTAN teve despesas tão elevadas quanto se tivesse perdido a guerra. Exemplo: cerca de 2.000 mísseis de cruzeiro, e mais de 3.000 missões, não puderam destruir o fraco sistema de defesa aérea iugoslava. As forças da OTAN não puderam começar as operações terrestres, até que o problema foi resolvido por meios políticos.
Quanto custa um míssil de cruzeiro? Cerca de um milhão de dólares, agora, provavelmente, cerca de 10 milhões.
Eu não tenho certeza, mas algo em torno disso. Um veículo blindado (VBTP) atingido por um foguete custa ao redor de 300 mil .... eles foram capazes de vencer, mas as consequências dessa vitória anularam o resultado.

E assim, o conceito de um novo método de guerra foi criado, uma guerra terrorista conduzida usando um contingente barato, recrutados localmente e/ou em estados vizinhos. Mil combatentes inexperientes são mais baratos do que um soldado treinado nos metodos modernos de guerra. Um Javelin (sistema FGM-148 Javelin-americano portátil anti-carro) custa tanto quanto mil combatentes. Mas os danos causados por um milhar de combatentes é claramente superior aos danos causados por um Javelin.

Exércitos terroristas são baratos, massivos e eficazes, além de não oferecer nenhuma oportunidade de retaliação. Porque um exército terrorista não pertence a ninguém, não há ninguém para ser contra-atacado. Todo mundo sabe quem são os senhores desse Exército, quem o patrocina mas, formalmente, nenhuma reclamação pode ser feita.

Esta guerra terrorista é composta por vários elementos. O declínio nos padrões de vida dos estados vizinhos e a criação neles de pontos de instabilidade, são lugares onde você pode recrutar combatentes, onde um conflito de baixa intensidade permite a penetração transfronteiriça, onde a população tem armas. E isso possibilita, na fronteira do Estado, a criação de uma fonte permanente de combatentes. Um declínio nos padrões de vida nos países vizinhos leva a uma queda no custo dos combatentes. Desencadeando a histeria religiosa ou nacionalista, o trabalho da mídia de massa e, em seguida, patrocínio e fornecimento de armas. A Ucrânia realmente, na minha opinião, se encaixa nesses parâmetros, e o que está acontecendo lá é um trampolim preparatório. Nós vemos o que está acontecendo agora na Ucrânia; este processo foi, em si mesmo, o objetivo.

É o mesmo na Síria. É óbvio para todos que os rebeldes não podem vencer. Mas vencer, esse não é o seu objetivo. A vitória [o alvo] é a instabilidade, o processo de guerra. Entre nós a fonte de mão de obra podem ser trabalhadores migrantes Wahhabis que chegaram ao local (se a sua vida não tem produzido, se eles não podem realizar-se lá e aqui também). O Wahhabismo, infelizmente, começou a avançar fortemente em nosso país, é um movimento que não conhece tons de cinza, eles realmente estão prontos para morrer. Além disso, uma grande ajuda para um potencial agressor serão nossos combatentes chechenos que retornam da Síria. Eles abertamente dizem que na Síria estão se preparando para a guerra por aqui. E nacionalistas, curiosamente, os próprios russos. Porque eles vão ser a fonte, muito provavelmente, de confrontos e serão como "bucha de canhão" para o lado oposto. Muitos disseram-me que o que está acontecendo na Síria é impossível em nosso país, porque nós não temos tal massa Wahhabista. Mas, na Ucrânia, foi possível iniciar uma guerra em curto prazo, com o mínimo esforço. Eles podem sempre encontrar uma desculpa. Realmente não importa religião, questões nacionais, a economia ou qualquer outra coisa. Uma desculpa é apenas uma desculpa, sempre haverá "bucha de canhão" para isso.

Como é que uma guerra terrorista difere de uma guerra comum?
Se em uma guerra normal um Exército luta contra outro Exército, em uma guerra terrorista, onde o objetivo não é a vitória, mas a guerra em si mesma; os militantes lutam contra a população. E nenhum Exército no mundo pode defender a sua população contra esses militantes. Todos os Exércitos, cada um deles, independentemente do nível de desenvolvimento de um país ou de sua capacidade técnica, todos os Exércitos estão destinados a lutar contra outros Exércitos como ele. Um pequeno exemplo: um milhar de militantes em Jobar pode tomar um território, e será necessário pelo menos 50 mil soldados para recuperá-lo. Por quê? Como pode um Exército proteger a população? É necessário fazer um cordão de isolamento confiável na área para que os militantes não o rompam (e militantes podem atacar/romper vindos de qualquer direção), saturando a área com soldados. Mas nenhum país que pode manter um Exército é capaz de se proteger dos militantes, simultaneamente, mais do que uma ou duas áreas povoadas. Se empregarmos todas as forças armadas da Rússia, elas podem defender Moscou  e saturá-la com forças, para que os militantes não possam operar. Ou Leningrado. Ou Novosibirsk mais Khabarovsk. É isto! Muitos se surpreendem com o fato de que o Exército sírio, agora com 600 mil homens, não possa vencer. O Exército não pode vencer nesta guerra, porque a defesa simultanea de todas as áreas povoadas é impossível. E os militantes, ao contrário de um Exército clássico, podem atacar em vários lugares, a qualquer momento e simultâneamente. Se com uma linha de frente [como na guerra clássica], há uma linha de contato, então, no caso de uma guerra terrorista, todo o território de um país é a linha de frente. Em princípio, nunca haverá tropas suficientes.
Nord-Ost nos mostrou que 20 militantes basicamente desarmados (armas leves) foram liquidados em três dias, utilizando-se praticamente todas as forças contra-terroristas do país. E com vítimas civis. Um cinema não é o objetivo mais difícil de limpar. Uma torre residencial vai apresentar mais problemas. Se houver, por exemplo, 50 desses grupos (e recrutar milhares de combatentes é elementar), eles não só podem paralisar uma cidade como Peter (talvez eles precisem de 1.500 para Moscou); eles podem destruir uma grande parte da população e eles não podem ser liquidados sem a destruição da mesma, o objetivo de seu ataque. O exemplo da Síria é muito revelador. Ali, onde o Exército por conta própria tentou liquidar os militantes, a cidade foi arrasada.

Desde os tempos de 2 ª Guerra Mundial sabe-se que não se pode tomar uma cidade, se for defendida, até que ela seja destruída. Todas as cidades ou se rendem para evitar sua destruição, ou os adversários se retiram vendo a superioridade da força de defesa, ou elas são destruídas. Stalingrado, Berlim [Voronezh] são exemplos vivos de cidades que foram defendidas. Com terroristas, é muito mais complicado. Como seu objetivo é aterrorizar a população local, eles não precisam se envolver com o Exército; pelo contrário. Seu alvo são os civis desarmados. E a Polícia tem como objetivo socorrer os militantes (estou dizendo tudo isso com o exemplo da Síria).
Onde os militantes obtem armas?
Eles precisam de armas leves com as quais atacam delegacias que são completamente indefesas. Eles conseguem armas lá. Então, com essas armas eles atacam paióis do Exército que estão localizados na retaguarda e indefesos; ali, eles conseguem armas pesadas. Assim, mesmo sem apoio externo, em alguns dias um Exército Terrorista pode armar-se. Nem o Exército, nem a polícia, nem comandos contra-terroristas, podem lidar com isso. A decisão está lá, mas, infelizmente, é muito difícil tomá-la. Eu não sei por que ninguém fala sobre isso ou pensa sobre isso entre os nossos comandantes. Mas a Síria mostrou claramente que a única opção para a defesa de áreas povoadas é a presença de voluntários. Somente voluntários amigos, apoiados pelo Exército, podem garantir a defesa de áreas povoadas.
O que se entende por voluntários?
Eles não são homens andando nas ruas com rifles de assalto. Como foi feito na Síria? Eles são civis, a maioria dos quais serviram no Exército (embora isso não seja necessário), que sabem como entrar em contato com um comandante em caso de necessidade. O comandante é um oficial do Exército. Em atividade ou reformado. Ele se reúne periodicamente com eles, para exercitá-los. Enquanto isso, eles vivem suas vidas pacíficas normais. Eles sabem como entrar em contato, o comandante sabe onde conseguir armas. A vantagem dessas unidades sobre o Exército e os militantes é que, ao contrário do Exército, estão lutando em seu território, que eles conhecem. Uma unidade voluntária não precisa estar constantemente em alerta de combate, mas eles devem ter condições de se reunir, de estar sob o comando e de serem coordenados pelas forças de segurança. Sem isso, nenhum caso de ataque de militantes na Síria foi evitado, pois não havia coordenação com as forças de segurança. Se os voluntários agem por conta própria, sem coordenação com as forças de segurança, é inútil. Um exemplo de uma aldeia atacada. Eles tinham um grande efetivo, mas um milhar de cidadãos só pode dispor de não mais de 10-15 homens dia e noite, eles precisam trabalhar, eles precisam dormir. E um grupo de militantes de 100 homens fortes, derruba-os. E se os militantes têm 2 mil homens, eles nem sequer notam uma tal resistência.

O objetivo da resistência não é a função militar de parar o adversário numa linha de frente: o seu propósito é bloquear o oponente o mais rápido possível ; se eles já entraram, para parar a sua "propagação", e para destruí-los usando guerra contra-partidária (se assumirmos que os militantes/bandidos usam métodos partidários). E o Exército só é necessário para apoio de fogo, porque o seu poder é, obviamente, muito maior. Assim, em geral, o trabalho é feito por voluntários e o Exército está em apoio, liquidando os militantes. Somente quando existe essa organização, os militantes tem medo de entrar e muito rapidamente são destruídos. Em outros casos, infelizmente, só temos experiência negativa.
Explodir um ônibus não cria muito dano?
Explodir um ônibus é trabalho pequeno. Uma guerra terrorista é muito mais que isso. Explodir um ônibus é uma ação única . Não tem nenhum efeito como uma ameaça. Mas se, simultaneamente, em 10 cidades, 30-50 grupos terroristas começam a matar a população ... tomar uma torre residencial. O grupo entra, derruba as portas e mata os residentes. Onde as portas não caem, eles usam um RPG. Em duas horas o bloco residencial é exterminado. Completamente. Em seguida, passam para o próximo. Imagine que 50 desses grupos em Peter, eles eliminam  a população.
A vulnerabilidade é muito alta. Eles perguntam, por exemplo: por que não houve resistência em Mariupol? Os cidadãos são realmente incapazes de auto-organização em uma força de combate operacional. Eles podem se auto-organizar em uma multidão, que 100 militantes organizados podem massacrar, independentemente da presença de armas entre os cidadãos. A resistência é algo diferente dessa multidão, pois então o comandante reúne-os, exercita-os para o combate, para o tiro, fixa com antecedência como irão agir em várias situações específicas. Realiza treinamento.
A população é incapaz de auto-organização. Eles podem se organizar sob a direção do Exército (Forças de Segurança), antes do início das hostilidades. Esse é o problema. Quando as hostilidades começam, é muito tarde para organizar qualquer coisa. Primeiro de tudo, não há tempo para a formação, treinamento, coordenação com comando externo. Em segundo lugar, se os militantes já apareceram em uma área povoada, eles não vão permitir que uma resistência apareça. Assim que dois atiradores se encontram, imediatamente um dispara no outro. Eles são muito cruéis.
O que é que os combatentes não-ideológicos querem, os que não são Wahabbis?
Dinheiro. 50 dólares por mês. Alguns 100. Os mais sonhadores,150.
Eu queria ter essa conversa de volta para a Rússia. Você descarta uma tal situação para a Rússia? Ou isso vai acontecer com certeza?
Eu não sou um oráculo. Mas a probabilidade é alta. Acho que tudo está caminhando nessa direção. Pelo menos o que está acontecendo no mundo mostra claramente que a guerra já começou. Ao meu ver.
Com a Rússia?
Sim, a guerra mundial já começou. Eventos na Ucrânia eu considero como etapas preparatórias para a invasão. É uma das possibilidades. Eu não estou dizendo que vai acontecer amanhã ...
Então, o mesmo cenário é considerado?
Eu acho que sim. Tem sucesso comprovado.
Putin tem apoio de 80% ....
Assad também tem apoio de 80%.
Medidas de prevenção, como "apertar os parafusos" como estamos assistindo na Rússia.... as leis em relação a fazer declarações sobre Guerra Patriótica ou separatismo da Rússia ... se a população não suporta os militantes .....
Eles são absolutamente ineficazes. Na Síria a população não suporta os militantes. Os militantes não perguntam à população se apoiam algo ou não. Eles vêm para saqueá-la, e assassinar. Eles não precisam de qualquer apoio da população. Eles vêm para matar a população. Os militantes não precisam de mudança de regime. Eles não precisam conquistar o país. A essência da guerra terrorista é a destruição do país como uma unidade economica. O objetivo da guerra terrorista é o caos, e não a conquista. Uma guerra terrorista é a maneira mais rápida e mais barata para destruir um país. Não querem esperar até que a Rússia desmorone por si só, eles querem obter o resultado agora. A Síria, talvez, também teria "desmoronado por conta própria" algum dia. Mas não querem esperar mil anos, nem cem, nem dez.
O conceito de guerra terrorista é aplicável não apenas a países pequenos. A Síria, por exemplo, tem 25 milhões de pessoas. Ucrânia tem 45 milhões. São países muito grandes. A essência da guerra terrorista não está na conquista, mas na destruição. Porque um país destruído é considerado um objetivo aceitável. Simplesmente a destruição física da economia. Assim ele se torna um território sem dono, subdesenvolvido, caótico.
Os acontecimentos na Ucrânia não me horrorizaram tanto por causa das vitimas quanto pelo cenário adiantado que confirma meus piores medos de que os preparativos estão em andamento,  e a possibilidade de se desencadear uma guerra terrorista contra a Rússia, é muito alta. Como vamos reagir? Ainda temos tempo, mas... não há muito tempo atrás eu pensei que nós tínhamos 3 ou 4 anos .... agora eu não sei, é difícil de prever, não é mais na Ucrânia, eu não sei como os eventos irão se desenvolver na Russia.

Fonte: Alex Maximenko - FB



Carlos I. S. Azambuja é Historiador.

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