"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

domingo, 5 de março de 2017

05 de Março de 1953: Morte de Estaline

05 de Março de 1953: Morte de Estaline:

Nos últimos anos de vida, Estaline só ia ao Kremlin à tarde e à noite. Depois de assinar a correspondência e receber visitantes, recolhia-se na sua datcha de Kuntsevo, em plena floresta, a 15 minutos de carro do Kremlin. Incapaz de suportar a solidão depois do suicídio da sua segunda esposa, costumava convidar três ou quatro colaboradores para um jantar interminável e copiosamente regado.

O cardiologista Vinogradov, que tratava dele havia 15 anos, recomendou-lhe cuidar da saúde e parar de fumar. Estaline não gostava de receber ordens; tinha medo da morte e, para evitar que o envenenassem, recusava-se a tomar medicamentos.

No dia 13 de Janeiro de 1953, o jornal Pravda denunciou os " médicos assassinos", professores de medicina, na maioria judeus, suspeitos de actuar sob as ordens do serviço secreto inglês ou americano e de uma organização sionista, a Junta, que, segundo os boatos, se infiltrara nos mais altos escalões do partido.

Não passava um dia sem que os jornais denunciassem novos escândalos, novas prisões. Cochichava-se que jovens oficiais não saíam vivos de certos hospitais. Aparentemente, as enfermeiras sabiam que ocorriam coisas estranhas, mas não se atreviam a dizer nada por medo dos médicos judeus. O processo destes médicos estava previsto para 5 a 7 de Março. Quanto à sentença, não havia a menor dúvida, já se tinham tomado providências para que as execuções ocorressem a 11 e 12 de Março.

Por um motivo ou outro, todos se sentiam ameaçados. Viatcheslav Molotov, por ser casado com uma judia. Nikita Kruschev, por causa do partido na Ucrânia.  Estaline não poupava os colaboradores mais próximos. Demitiu o seu fiel secretário Proskrebychev depois de mandar fuzilar a sua esposa judia. Mandou prender o chefe da sua guarda pessoal, o general Nikolai Vlassik, suspeito de ter "favorecido os médicos envenenadores". Prometeu poupar a vida do seu médico Vinogradov, "desde que ele reconhecesse os seus crimes e delatasse todos os cúmplices", mas só conseguiu arrancar-lhe uma confissão depois de vários dias seguidos de espancamento.
Às 11 horas da noite de 28 de Fevereiro de 1953, quatro habitués chegaram à datcha: Gueorgui Malenkov, Nikolai Bulganin, Kruschev e Beria.
Às 4 horas da madrugada, Estaline deitou-se. Os quatro convidados saíram. Dias antes, Beria tinha conseguido afastar o guarda-costas mais chegado a Estaline, Alexei Rybin, nomeando-o chefe da guarda do Teatro Bolshoi, e substituí-lo por um homem da sua confiança, Krustalev.

No dia 1 de Março, Estaline que costumava acordar às 11 horas, não deu sinal de vida. Mas ninguém estava autorizado a entrar nos seus aposentos sem ordem expressa dele. O tempo passou. Meio-dia. Duas horas. Seis horas da tarde. Dez horas da noite. Os empregados e os guarda-costas já estavam preocupados. No entanto, havia telefones instalados em todos os quartos, em todos os salões, em todas as casas de banho, para que Estaline pudesse pedir o chá, a correspondência, os jornais. Mas não havia utilizado nenhum. Essa rede telefónica era complementada por um sistema de alarme.
Às 11 horas da noite, depois de muita hesitação, Starostin, o chefe da guarda pessoal da datcha, ganhou coragem. Usando como pretexto a chegada da correspondência do Comité Central, ousou bater à porta do chefe. Nenhuma resposta. Ele entrou e encontrou  Estaline caído no chão, de pijama, os olhos arregalados, incapaz de articular uma palavra. Starostin pediu socorro.

Na datcha, não havia médico nem enfermeira. Em vez de chamar um médico, como queriam os empregados, ele achou mais sensato avisar Ignatiev, seu superior hierárquico. Este, por sua vez – e em defesa da própria pele – tomou uma sábia precaução. Em vez de alertar Beria, avisou Kruschev e Bulganin e levou-os à casa da guarda da datcha, onde Starostin expôs a situação.
À meia-noite, eles saíram discretamente, sem ter entrado nos aposentos de Estaline. Graças a essa antecipação com relação a Beria, Bulganin, ministro da Defesa, tomou algumas providências: reservadamente, mandou deslocar para as proximidades do Kremlin alguns batalhões em que tinha plena confiança, e Kruschev deu ordem de suspender imediatamente a campanha antissemita na imprensa, o que lhe valeria favores de Molotov.

Só então Ignatiev pôde prevenir Malenkov. Este saiu à procura de Beria e juntos foram levados ao quarto de Estaline. Receando acordar o chefe, Malenkov tirou as botas novas, que rangiam no soalho. Diante do corpo inerte de Estaline, Beria voltou-se para os guarda-costas: "Lozgachev, por que esse pânico? Não vê que o camarada Estaline está a dormir profundamente?. Somente às 7 horas da manhã telefonou para o ministro da Saúde, pedindo-lhe médicos. Duas horas depois, portanto, às 9 da manhã de 2 de Março, Beria e Malenkov retornaram à datcha, seguidos por Bulganin e Kruschev, depois por Tretyakov, acompanhado de quatro médicos. Para evitar inconvenientes quando se divulgasse o boletim médico, Beria contou-lhes que Estaline acabava de sofrer um ataque. Na verdade, ele ficara 14 horas sem socorro.
Os médicos diagnosticaram hemorragia cerebral. Se tivessem sido chamados na véspera, certamente poderiam prolongar a agonia em alguns dias, mas, sem dúvida, não tinham condições de salvar o doente. Pediram para ver o prontuário médico. Nada encontraram nem na datcha nem no Kremlin. Pouco depois, o moribundo vomitou sangue, como nos casos de envenenamento.
Os quatro dignitários deixaram o enfermo com os médicos e voltaram para o Kremlin.   Tudo se resolveu no dia 5 de Março. A sucessão de Estaline foi aprovada unanimemente, sem debate.
Malenkov, Beria Bulganin, Kruschev, dessa vez acompanhados de Molotov e Vorochilov, puderam voltar à cabeceira do agonizante. Na datcha, encontraram, além dos médicos, Svetlana e Vassili, os filhos de Estaline, assim como Istomina, a sua empregada, que parecia ser a mais abalada. O grande homem acabava de expirar. Beria conseguiu dissimular a alegria durante alguns minutos.

No dia 6 de Março, um boletim oficial anunciou o falecimento de Estaline, atribuído a uma hemorragia cerebral causada pela hipertensão, que provocou paralisia, a perda da fala e da consciência. Um segundo ataque teria afectado o coração e os pulmões. O boletim omitiu o vómito de sangue.
No dia 9 de Março, na praça Vermelha, uma multidão imensa desfilou para saudar o caixão aberto em que repousava Estaline. Na multidão, várias centenas de homens e, sobretudo, de mulheres morreram sufocados, como no dia da coroação do czar Nicolau II.

Fontes:http://www2.uol.com.br/historiaviva/

http://news.bbc.co.uk/

wikipedia (imagens)
File:Russian Premier Stalin talks with gestures to his Foreign Minister Molotov at the Palace, Yalta, Crimea, Russia. - NARA - 197000.jpg
Molotov e Estaline

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