"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 31 de março de 2017

A TRAIÇÃO DA CLASSE MÉDICA E A CUMPLICIDADE DE SEUS ÓRGÃOS REGULADORES COM UM GOVERNO DE MARGINAIS


Um Estudo Psiquiátrico : O papel do Advogado do Diabo : defendendo os médicos que estão assumindo, de modo muito mais precário, os empregos de médicos demitidos sumariamente na Prefeitura de Goiânia.


por Marcelo Caixeta, médico psiquiatra.

Por um lado, é muito bom ver a união da classe médica contra o Governo, no caso da Prefeitura de Goiânia, que vem precarizando o trabalho médico. Antes tarde do que nunca. Antes agora - por motivos materialistas - do que nunca - por motivos idealistas . O Conselho de Medicina parece ter optado por processar aquele médico que assumir, em condições mais precárias, os postos de médicos demitidos 

No entanto, agora fazendo o papel do “advogado do Diabo”, gostaria de ter resposta para algumas questões : 

1/ Por que Conselhos Médicos, Entidades Médicas, não processaram os médicos que : 

1.a - assumiram responsabilidades de assinar as condutas dos técnicos em Medicina de Cuba que o Governo colocou para trabalhar como médicos ? 

1.b – médicos que ensinam Medicina para não-médicos, ganhando muito dinheiro com isso ? Por exemplo, a própria USP vive oferecendo cursos de conteúdo psiquiátrico para não-médicos. 

Recentemente mesmo estava dando um curso de psiquiatria forense (que é uma sub-especialidade de uma especialidade médica) para não-médicos. 

1.c- médicos diretores de Congressos que aceitam não-médicos tendo aulas de Medicina, e onde também rola muito dinheiro e poder ? Por exemplo, aproximadamente 30% dos freqüentadores do grandioso Congresso de Psiquiatria são compostos por psicólogos.... 

1.d- médicos-políticos, p.ex. Alexandre Padilha, que, renitentemente, atentam contra a Ética Médica, por exemplo, colocando não-médicos para fazerem trabalhos médicos, retirando médicos de unidades de urgência, oferecendo cotas políticas para aprovação em concursos médicos, etc ? 

1.e- médicos do Governo que desmantelam os serviços da medicina liberal, fechando hospitais e jogando milhares de doentes nas ruas ? Por exemplo, coordenadores de saúde mental que fecham hospitais psiquiátricos conveniados ao SUS para dar cabides de empregos para não-médicos em “ambulatórios de saúde mental” ? Ou , por exemplo, médicos gestores que fazem “dumping”, isto é, inauguram serviços públicos, p.ex., UPAs, Hospitais municipais ou regionais, patrocinam o fechamento de serviços conveniados ou filantrópicos, e depois que o serviço público mostra que não funciona a população fica sem nenhum nem outro. 

1.f- usam os planos de saúde ou grandes grupos hospitalares ou empresariais para explorarem outros médicos ? 

1.g – os médicos gestores públicos que colocam os colegas para trabalhar em condições sub-humanas, sub-científicas ? Por ex., quase todas unidades de saúde funcionando sem diretoria médica, com diretores não-médicos, sem condições materiais, sem exames, medicamentos adequados, pacientes internados em condições sub-humanas, etc. Um simples exemplo, o pronto-socorro psiquiátrico público de Goiânia, não tem carbonato de lítio ( um dos três medicamentos mais usados em psiquiatria ) há anos e anos... Por que nunca, mas nunca mesmo, vimos médicos responsáveis por isso processados por negligência ? 

1.h- médicos donos de faculdades de papel, de mentirinha, ou professores que fingem que ensinam ? Professores que aceitam medicina ser ensinada por não-médicos, só para abaixar custos ? Professores que deixam alunos se formarem sem lhes fornecerem hospitais, cirurgias, aulas práticas, ensino ambulatorial ? ( p.ex., estou tratando de um aluno de medicina traumatizado porque levou pau em uma faculdade cuja aulas e provas de cardiologia eram dadas , aplicadas e corrigidas por um farmacêutico ).

1.i – Por que nenhuma Entidade vem a público quando o Governo fecha hospitais não-estatais ? Por exemplo, esses dias, fechou-se em Goiânia um hospital que empregava aproximadamente 200 médicos. Esses dias nosso hospital mesmo fechou uma ala, asfixiada pelo Governo, que dava emprego para 5 médicos. Nenhuma linha sobre isso. Por que ? Porque não são empregos no Governo. Os médicos, como disse acima, e abaixo, estão preocupados com empregos “no Governo”, e não se importam , ou fazem vistas grossas para os empregos que o próprio Governo está dizimando na iniciativa privada. Agora estão sobrando apenas empregos no Governo, e se o patrão é único, ele pode escravizar. E se ele pode escravizar, ele pode precarizar o trabalho como quiser... 

2/ Nada disso acontece, ao meu ver, porque o objetivo de “processar médicos que fazem contratos precários com o poder público” não é o de defender uma “boa prática médica”, e sim defender a excelência de empregos públicos, a excelência de salários públicos, benesses públicas. 

3/ Isso acontece por causa da cultura brasileira, da cultura de nossa classe média, cujo objetivo é “arranjar-se no Governo”, em qualquer Governo. Não temos a cultura coletivista, não temos a cultura empreendedora, não temos a política da inovação individual, do crescimento intelectual/técnico/empresarial. Nossa cultura é única : “tentar arrumar um emprego bom no Governo”. Por isso, nenhum dos médicos citados acima ( do item 1.a. até 1.i.) é processado, pois nada disso acima mexe com o fundamental : “salários e benesses no Governo”. 

4/ Essa política de só ter olhos para empregos e benesses no Governo, no entanto, é fadada ao fracasso. Um dos motivos é porque , ao meu ver, é superficial, não vê o problema em profundidade. Outro motivo, ao meu ver, é porque é anti-ética, voltada para benefícios empregatícios ou pecuniários e não o benefício “ideológico” de melhorar a Medicina, tanto para o médico quanto para o paciente. 

5/ O que não é moral não subsiste, isso quem ensina não é a Religião, é a História. Não é moral preocupar-se mais com salários do que com condições de trabalho. Um exemplo de que essas políticas ( p.ex., processar médico que trabalha precarizado ) não-morais não irão subsistir é o seguinte : a inexorável Lei do Mercado ( excesso de médicos, falta de locais para trabalhar, pois tais locais vem sendo dizimados pelo Governo ) irá colocar médicos para atender no Governo a 150 , 100 reais, um plantão de 12 horas, como já ocorre em muitos lugares no Brasil. 

6/ Como o Governo vem se transformando no “único patrão”, mesmo via indireta das Organizações Sociais, é o Governo que, como patrão único, irá ditar todas as normas, inclusive as normas precarizadas de salários e de condições de trabalho, exploração, etc. Tanto mais quanto foi o próprio Governo que promoveu, maquiavelicamente, o aumento explosivo de faculdades de medicina, justamente com o intuito de oferecer muita mão-de-obra barata e fragilizada. 

7/ O que tentei mostrar é que, quando não se luta numa base moral, numa base ideológica, numa base racional, profunda, depois não adianta querer atuar na superfície, não adianta querer corrigir lá na ponta um problema que já fincou raízes profundas. E o problema médico no Brasil já fincou raízes mais do que profundas, sem que nenhum dos responsáveis tomasse qualquer providência. Agora, ao meu ver, é uma injustiça , querer punir os “mortos-de-fome” que estão dispostos a trabalharem por merrecas... Podem punir médicos, “des-precarizar” algum contrato público, mas isso é maquiagem, é questão de tempo para que o Todo-Poderoso Governo arrume outro jeito de exercer sua Escravidão. 

Contra esse, como mostrei, ninguém quer lutar. Pelo contrário, médicos e suas Entidades, até hoje, só quiseram compor com ele. Até hoje não enxergaram que a traição, de agora em diante, será o moto perpétuo. Portanto, finalizando, a traição da classe não vem de seus componentes mais fragilizados; a traição vem de seu “Amigo mais Poderoso”. 

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