"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 17 de março de 2017

...E a política nunca mais será a mesma depois da delação da Odebrecht

...E a política nunca mais será a mesma depois da delação da Odebrecht:

Revista ÉPOCA - capa da edição 978 - ...E a política nunca mais será a mesma (Foto: Revista ÉPOCA)


A política brasileira não será a mesma depois do dia 14 de março de 2017. A delação premiada dos executivos da Odebrecht lança suspeitas – de corrupção e caixa dois – sobre a elite da política brasileira, incluindo os principais representantes dos maiores partidos. Estão lá dois ex-presidentes petistas, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Os três principais caciques do PSDB, Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin. Ministros do PMDB que formam o círculo mais próximo do presidente Michel Temer, como Eliseu Padilha e Moreira Franco. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, também do PMDB, e o da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM. Os poderosos de Brasília se perguntam – assim como os cidadãos brasileiros em geral: e agora?

>> Ministros de Temer na lista de Janot



Os políticos tentarão, na medida do possível, garantir sua sobrevivência. Será difícil. A recente tentativa de descriminalizar o caixa dois, na calada da noite, enfrentou resistência da opinião pública e sumiu da pauta – na verdade, era uma tentativa de usar o caixa dois como desculpa para anistiar crimes de corrupção. A novidade agora é ressuscitar uma proposta petista de reforma política que já foi derrubada várias vezes na Câmara: o voto em lista fechada. Se tal projeto, esdrúxulo no contexto brasileiro, for aprovado, os eleitores perderão a prerrogativa de escolher seus deputados e senadores. Em vez disso, votarão em partidos – e os partidos escolherão que deputados e senadores os representarão no Congresso. Isso garantiria a continuidade de muitos dos políticos atuais. Parece outra manobra fadada ao fracasso, embora não se possa menosprezar a capacidade de articulação dos políticos. Os deputados e senadores fariam melhor se esquecessem os truques e malandragens e deixassem que tudo corresse de acordo com o curso previsível das democracias.

Isso significa, basicamente, deixar que a Justiça siga seu rumo. Ser citado na delação dos executivos da Odebrecht não faz de ninguém culpado aos olhos da Justiça. Ainda há um longo processo de investigações pela frente. Alguns serão inocentados. Outros, enquadrados no crime de corrupção, ou no de caixa dois, ou em ambos – são crimes diferentes, e o mesmo ocorre com as punições. Pela Justiça brasileira, poderão recorrer. Tal processo deve durar, no mínimo, dois anos, e  estará em curso ao longo da próxima campanha eleitoral. Alguns dos políticos que estão hoje em evidência sobreviverão. Outros ficarão impossibilitados de concorrer. Um terceiro tipo poderá disputar cargos públicos, mas não terá votos dos eleitores, devido ao desgaste. É possível que haja uma renovação bastante ampla no Executivo e no Legislativo. Se o eleitor brasileiro for suficientemente sábio para deixar de fora os populistas de plantão, tal renovação pode ser bem-vinda. Nas democracias, os políticos passam – mas a política continua.

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