"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

segunda-feira, 6 de março de 2017

Manifestações e delações

Vazamentos nas próximas semanas vão levar alguns à desonra e outros à prisão

06 Março 2017 | 05h00

Denis Lerrer Rosenfield

As delações da Odebrecht, que começam a aparecer sob a forma de depoimentos prestados ao Tribunal Superior Eleitoral, são estarrecedoras. Até o mais cético se pergunta como pudemos ter chegado lá, com o Estado tendo sido tomado de assalto por uma organização criminosa. Foi o esplendor dos governos lulopetistas.
A abrangência, contudo, desses depoimentos e delações mostra que a praga, capitaneada pelo PT, não se restringiu a esse partido, contaminou profundamente o PMDB, o PP, o PDT e agora o PSDB, além de outros partidos. É praticamente toda a classe política que foi posta em questão.
A questão política tornou-se uma questão policial, tendo como pano de fundo uma profunda recessão e um amplo desemprego produzidos pelos sucessivos governos petistas. O desmonte foi total, atingiu empresas estatais, como a Petrobrás, que se tornou instrumento de corrupção e propina, sustentando um projeto de poder e enriquecendo políticos e funcionários. Empresas “vermelhas”, como a Odebrecht, foram colaboradoras entusiastas e aproveitadoras do projeto socialista.
Acontece que a desestruturação política foi de tal porte que produziu um imenso enfraquecimento institucional, que só não foi maior pelo comprometimento da Justiça personificado pela Lava Jato. O bem público foi posto em primeiro lugar. Poderosos pela primeira vez foram investigados, condenados e presos. Eis a luz no meio de um cenário sombrio.
O presidente Michel Temer, alçado constitucionalmente a essa posição, foi resultado de todo esse descalabro econômico, social, político e institucional. Determinantes foram as manifestações de rua, em particular a de 13 de março de 2016, que deu um não definitivo à ex-presidente Dilma e ao PT, e um sim indireto ao novo mandatário.
Coube a Temer empreender a transição, enfrentando uma herança maldita que só aos poucos se foi tornando clara. Medidas urgentes na área econômica foram postas como prioritárias, tendo como resultado a PEC do Teto do gasto público, o envio da PEC da Previdência, o projeto de lei da modernização da legislação trabalhista, a profissionalização da gestão da Petrobrás, a efetiva independência concedida ao Banco Central, que se traduziu na queda da inflação, além de outras medidas igualmente importantes como uma nova política externa após o descalabro bolivariano-petista, e o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI).
Mas a sociedade está insatisfeita, e com razão! Exigiu – e continua exigindo – uma nova forma de fazer política, ancorada no princípio da moralidade pública. O não dito a Dilma e ao PT não foi um sim à permanência das mesmas formas de governar. E nesse quesito o novo governo deixou a desejar.
Premido por aprovar as reformas econômicas, o novo presidente terminou privilegiando a relação com a Câmara e o Senado, consciente de que esse era o caminho. Descuidou, porém, da moralidade pública, cercando-se de assessores e ministros que não correspondem ao padrão ético exigido pelos brasileiros. Entrou em descompasso.
É bem verdade que o novo presidente só poderia governar com deputados e senadores eleitos na onda populista de esquerda, acostumados aos privilégios e aos mais diferentes tipos de “negócios”. Entretanto, houve um evidente desbalanceamento, com as novas demandas éticas relegadas a segundo plano.
Nesse sentido, o presidente Temer está sendo responsabilizado por suas escolhas iniciais. Nada há que o desabone pessoalmente, o que foi mostrado no recente depoimento de Marcelo Odebrecht. O mesmo não se pode dizer de várias pessoas de seu entorno.
O volume de vazamentos nas próximas semanas, se não dias, será equivalente ao de uma avalanche, levando alguns à desonra, outros a condenações e prisões. Não haverá controle sobre esse processo. E seus efeitos serão os mais impactantes, numa espécie de terra política arrasada.
O procurador Janot, se estivesse verdadeiramente à altura de seu cargo, deveria partir imediatamente para oferecer denúncias contra os mais envolvidos na Lava Jato, abrindo caminho para que o presidente Temer, conforme sua promessa, possa imediatamente afastar alguns ministros, segundo critério por ele mesmo estabelecido. Não há, porém, nenhum indício de que vá seguir essa via, contentando-se com a abertura de inquéritos que podem levar anos.
Aumenta aí a responsabilidade do presidente, pois não poderá ele aguardar que denúncias se produzam se o volume de delações e depoimentos for avassalador. A sociedade pode entrar em estado de indignação, traduzindo-se por fortes manifestações de rua. Não vai esperar!
Refiro-me, evidentemente, às manifestações do tipo que levaram ao impeachment da ex-presidente Dilma, e não às do tipo circense organizadas pelo PT e seus movimentos sociais, os mesmos que levaram à grave crise atual. Esses só podem pretender uma crise ainda mais profunda, que permita realizar seus delírios socialistas. Aliás, nesse quesito estão sendo apoiados por intelectuais igualmente circenses, que pretendem fazer voltar ao poder o ex-presidente Lula, que se esmera em fugir de condenações e da prisão. É o conluio da esquerda com o crime.
Não há o que temer de uma sociedade que reage e exige de seus governantes padrões éticos de conduta. Se não aprova o modo de fazer política do novo governo, reproduzindo comportamentos anteriores, é seu dever manifestar-se. Manifestações tanto mais legítimas se souberem igualmente reconhecer os enormes avanços da agenda econômica reformista da administração Temer.
Manifestações são gritos de uma sociedade que quer fazer-se ouvir. O presidente tem uma rara oportunidade de se tornar seu verdadeiro interlocutor. Para isso deve tomar medidas de moralidade pública no seu círculo ministerial, que mostrem sintonia com uma opinião pública que clama por mudanças.

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