"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

quinta-feira, 16 de março de 2017

Rússia – Outubro de 1917

Rússia – Outubro de 1917:



L%25C3%25AAnin.jpg

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo é um dos capítulos do livro “A Luta de Classes na União Soviética”, escrito porCharles Betelheim, editora Paz e Terra. Charles Bettelheim (20 de Novembro de 1913 - 20 de Julho de 2006) foi um economista e historiador francês. Fundador do CEMI ("Centre pour l'Étude des Modes d'Industrialisation" - Centro para o Estudo de Modos de Industrialização) na Sorbonne;foi também consultor econômico em governos de vários países em desenvolvimento durante a descolonização. Foi muito influente na Nova Esquerda Francesa, e é considerado "um dos mais notáveis marxistas do mundo capitalista" (Le Monde4 de Abril de 1972) em França, mas também em EspanhaItáliaAmérica Latina e Índia.
“Poder concentrado sempre foi inimigo da liberdade” (Ronald Reagan)




-----------------------
Em outubro de 1917, o papel dirigente do Partido bolchevique sofreu algumas limitações que acarretaram conseqüências importantes ao curso posterior da revolução e às relações entre os diferentes aparelhos do Estado.  
A primeira dessas limitações – que constitui um traço específico da situação revolucionária do momento – trata-se do fato de, por ocasião da Insurreição de Outubro, o papel dirigente do Partido Bolchevique afirmar-se, essencialmente, em relação às massas operárias, enquanto mostrava-se ainda relativamente débil n o tocante ao campesinato. Essa limitação terá conseqüências muito importantes, pois o Partido encontrará, depois, dificuldades para modificar radicalmente a situação nesse aspecto.

É verdade que durante a guerra civil uma parte decisiva do campesinato aceitou a direção política – sobretudo no domínio militar – do Partido Bolchevique. Ao combater sob sua direção, ela permite que o poder soviético derrote os guardas brancos e as tropas de intervenção estrangeiras, mas tal adesão não significa que as massas camponesas tenham aceito integralmente as idéias revolucionárias, nem mesmo no tocante a uma parte das medidas imediatas. 
A segunda limitação do papel dirigente do Partido Bolchevique diz respeito a fato de que, mesmo no seio da classe operária, seu papel ideológico é dominantemente político. O eu penetrou amplamente numa parte decisiva das massas operárias não foram as idéias fundamentais do marxismo revolucionário – as que explicitam as perspectivas socialistas e permitem compreender as exigências da marcha para o comunismo -, mas, acima de tudo, as que correspondem ao que Lenin chama de “tarefas imediatas”. 
Em conseqüência dessas diversas limitações e das tarefas imediatas da Revolução, o Partido Bolchevique não podia fixar como objetivo – uma vez implantado o Poder Soviético - o início imediato das tarefas de transformação socialista. Assim, em 1917, e princípio de 1918, o Partido considerou, a justo título, que procurar alcançar imediatamente os objetivos socialistas, exceto em determinados pontos, seria utópico, e, portanto, mortalmente perigoso.
Esta limitação necessária e momentânea das tarefas é, então, objetivo de numerosas observações de Lenin – e de outros dirigentes bolcheviques -. Nas Teses de Abril, por exemplo, Lenin afirma:
 “Nossa tarefa imediata não é “introduzir” o socialismo,mas apenas passar imediatamente ao controle da produção social e à repartição dos produtos pelos sovietes de deputados operários”.
Essa tarefa foi reafirmada pouco antes da Revolução de Outubro, proclamada novamente no dia da insurreição e reiterada com vigor seis meses depois. 
Veremos que Lenin recorda então constantemente que a Rússia apenas iniciou a passagem para o socialismo. Assinala que as realizações de Outubro de 1917 e do período entre Outubro e abril de 1918, embora essenciais, são ainda os primeiros passos em direção ao socialismo.
Lendo a maior parte das obras de Lenin, constata-se que a razão principal pela qual ele considera que não se pode ir mais depressa e mais longe na direção do socialismo, inscreve-se na conjuntura constituída pela desordem econômica, a desorganização, a fome etc. Mas essa razão principal é efeito de uma razão fundamental ligada ao tipo de direção que o Partido Bolchevique pôde então exercer. Isto é, às limitações que caracterizaram na ocasião o papel dirigente do Partido. Constata-se, assim, que o Partido acredita ser possível passar diretamente ao comunismo desde a segunda metade de 1818, quando a situação econômica é ainda grave, mas lhe parece que as condições políticas e ideológicas modificaram-se profundamente com as massas camponesas aliando-se ao Poder Soviético a fim de se opor com sucesso aos guardas brancos e às tropas imperialistas.
Nesse período da guerra civil, o papel dirigente do Partido ampliou-se consideravelmente, mas não a ponto de lhe permitir, sem graves riscos, afastar-se fundamentalmente da linha traçada em 1917, fato que o levou a levantar o problema das condições da marcha para o socialismo, em termos essencialmente análogos, embora modificados em alguns pontos fundamentais, aos que foram impostos quase quatro anos antes.
O que foi dito sobre o papel dirigente do Partido Bolchevique, suas característica e limitações, em Outubro de 1917 e logo após, permite-nos discutir o problema das formas do Poder Proletário e de suas características específicas nessa época.

Carlos I. S. Azambuja é Historiador.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua mensagem será avaliada pelos Editores do Ataque Aberto. Obrigado pela sua colaboração.