"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sábado, 15 de abril de 2017

O Fim da Política no Brasil e a Lógica dos Quatro Discursos que Impedem o Renascimento da Nação.



Milton Pires

Afirmo percorrer o Brasil uma sensação inédita – aquela capaz de gerar a percepção de que a política acabou.

Tal entendimento já não mais depende do nível cognitivo e cultural das pessoas: é um fato único – atravessa todas as classes sociais, todas as raças e as mais discrepantes distâncias geográficas. Não se diferencia pelo nível econômico nem pelos campos opostos que se colocaram na cena pública até agora buscando manter ou derrubar o Regime Petista.

Não é o conflito entre coxinhas e mortadelas que acabou, é a própria arena, o palco do conflito. A mera possibilidade da atividade política, nas mãos de quem ela agora se encontra no Brasil como alternativa à barbárie, desapareceu.

Nós compartilhamos a indescritível sensação de sermos a vergonha do Mundo Ocidental. Protagonizamos o maior escândalo político de todos os tempos. Em nossos corações haveremos de carregar por décadas as mesmas perguntas feitas pela Alemanha depois de Auschiwtz e Breslau – como o permitimos? Como isso tudo foi possível?? Se não encontrarmos a resposta, se não nos deprimirmos, repetiremos o passado.

O Brasil volta no tempo, reduz-se, imola-se, desintegra-se regressando à época, ao exato momento, em que o General Golbery do Couto e Silva, fundador do Serviço Nacional de Informações (SNI), diz ao empresário corrupto Emílio Odebrecht – Lula não tem nada de Esquerda: é um bon-vivant.

Ao dizê-lo, revelou a Emílio que ele, Golbery, acreditava, juntamente com Geisel, na possibilidade de controlar Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT). Sim: Geisel e Golbery achavam ser possível fazer com Lula e o PT aquilo que fizeram com Roberto Marinho e a Rede Globo: comprá-los, domesticá-los e os apresentar ao país como representantes de esquerda capazes de fazer a Nação esquecer Leonel Brizola. Este era, no entendimento da Doutrina de Segurança Nacional, um perigo real e imediato.

Os generais não conseguiram prever que um alcoolista semianalfabeto, capaz de manter relações sexuais com animais, de cortar o próprio dedo, de gabar-se de seduzir viúvas de colegas, saído dos sertões de Pernambuco, pudesse reunir-se, em propósito geopolítico, com uma Universidade controlada pela Nova Esquerda e uma Igreja de Padres Comunistas: nasceu pois o PT, o PT chegou ao Poder, destruiu a Nação, acabou com a possibilidade de qualquer outra alternativa política, de qualquer forma de mudança dentro da Lei, pois que corrompeu a própria Lei aparelhando o Supremo Tribunal Federal, e deixou o país no vazio. Brasil Ano Zero: e agora ??

Agora urge que a Nação renasça e só pode fazê-lo com uma nova classe política no Poder. O Governo inteiro precisa renunciar, o Congresso precisa ser fechado, seus membros tem que perder o “foro privilegiado” e serem julgados em primeira instância. Isso é possível? É, mas o Renascimento enfrenta quatro discursos com a seguinte lógica:

1. EconômicoO Brasil vem se recuperando depois da saída de Dilma. Baixaram as taxas de juros, o país convalesce na visão de agências internacionais, o dólar está sob controle. A Nação não pode ficar refém de um processo judicial – a vida precisa continuar e as reformas (previdenciária, trabalhista, eleitoral, sindical e outras) precisam acontecer para que o Brasil seja reconstruído depois do Holocausto Petista.

2. Técnico-JurídicoDepois da megadelação da Odebrecht, é preciso seguir um rito. Processos são regidos por códigos. Eles demoram. Fases não podem ser puladas, ignoradas nem descumpridas sob pena de imputação de ilegalidades que venham, mais tarde, destruir tudo aquilo que a Força Tarefa da Operação Lava Jato conquistou.

3. ParanóicoQuem quer o fim do Governo Temer é a direita xucra. Ao pedir pelo fim da atual administração e interromper o andamento natural da História Política da Nação até 2018, está ajudando o PT a voltar ao Poder.

4. PetistaQuerem criminalizar qualquer forma de vida política no Brasil. Quem controla a Força Tarefa da Operação Lava Jato, quem faz parte da República de Curitiba, não quer apenas acabar com o PT, quer acabar com a Democracia e com a Política no país para colocá-lo sob controle de interesses internacionais que desejam tomar conta da Amazônia, do Petróleo e do Nióbio.

As respostas para estes quatro discursos são as que seguem:

Resposta aos defensores da Economia-Política na Lógica do Primeiro Discurso – a destruição do Brasil, muito mais do que econômica, foi Cultural. Fora do nosso país, antes do dinheiro, impera a palavra. A Ordem Econômica Fabiana que rege o Mundo Ocidental já tinha limites para o grau de confiança que depositaria no Governo Temer antes das delações virem a público. Agora ela acabou pois, ao contrário dos brasileiros, a comunidade internacional dos grandes negócios sabe não poder acreditar em qualquer espécie de reforma produzida pela Organização Criminosa que ocupa o Congresso Nacional.

Refutação dos argumentos dos Operadores do Direito no Segundo Discurso – a Justiça, na sua instância suprema no Brasil, é controlada por pessoas que lá foram colocadas pela própria Organização Criminosa que destruiu a Nação. Tempo já não está mais em discussão quando se fala no devido processo penal, em produção de provas, em rito processual e princípios hermenêuticos no Direito Brasileiro: é a idoneidade, a lisura do processo, a reputação de seus operadores que foi abalada. É regra geral, forte em seu princípio, que a Lava Jato há de enfrentar obstáculos em virtude de eventuais erros de instrução e mais fortes ainda em função daquilo que produzir em termos de acertos.

Antinomia do Terceiro Discurso (o Paranóico) – o argumento de que a deposição de Michel Temer e novas eleições ajudam Lula e o PT a voltarem ao Poder é nulo em consequência do fato deles não terem, sequer, saído do Poder. Quem diz que o PT saiu do Poder no Brasil não merece ser levado a sério em sua análise da conjuntura política.

Temer governa, possui a chave dos cofres e dos arsenais, mas quem detém o Poder no Brasil é a Organização Criminosa ligada ao Foro de São Paulo que controla Universidade, Mídia, Igreja e os altos escalões da Justiça e Forças Armadas. Quem denuncia um eventual fim do Governo Temer como manobra petista está interessado em entregar o Brasil ao PSDB (outro partido que integra a ORCRIM) em 2018.

Considerações sobre a Argumentação no Quarto Discurso (o Petista). Este é o único argumento que detém a característica de ser, ao mesmo tempo, original, representar um projeto de Poder para todo Brasil e para América Latina, e produzir uma confusão demoníaca entre o fim do PT e o fim da atividade política no território nacional.

Ele obriga àquele que escuta a reconhecer que a própria vida política no Brasil se confundiu com aquela da Organização Criminosa disfarçada de Partido que chegou ao poder em 2003. É este discurso, e somente ele, que pode dar ao povo brasileiro a noção do tamanho da sua tragédia e impelir toda sociedade, ao refutá-lo, num projeto de Renascimento da Nação.

Faltam 18 dias para que Lula encontre-se em depoimento perante Sérgio Moro. Não se vê um só Movimento de Rua, dentre aqueles que chamam para si mesmos o mérito de terem derrubado Dilma Rousseff, organizando-se para ocupar Curitiba pedindo sua prisão.

Não se vê, depois das revelações estarrecedoras nas gravações dos delatores, ninguém se organizando, chamando manifestações pedindo a renúncia de Temer, do Congresso inteiro, do STF e de novas eleições no Brasil.

A Reforma, na História da Humanidade, foi um Movimento Religioso que veio depois de um Renascimento Cultural. No Brasil, o desespero por “Reformas” é um Movimento Criminoso que quer impedir o Renascimento da Política e, em última instância, do próprio Brasil como Nação.

Porto Alegre, 15 de abril de 2017.


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