"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

terça-feira, 16 de maio de 2017

AUGUSTO NUNES - Radiografia de uma fraude (3): A supergerente



Radiografia de uma fraude (3): A supergerente:

Doutor em Física, com mestrado em Engenharia Nuclear, coordenador do grupo que redigiu o capítulo sobre a área de minas e energia no programa do candidato do PT, o professor Luiz Pinguelli Rosa já escolhera o terno para o primeiro dia na Esplanada dos Ministérios quando soube que fora barrado no baile. Por motivos ignorados tanto pelo quase ministro quanto pelos demais integrantes da equipe de transição acampada no Centro de Treinamento do Banco do Brasil, em Brasília, o cargo caiu no colo de Dilma Rousseff, filiada ao PT gaúcho e secretária de Minas e Energia do Rio Grande do Sul.

O que teria levado o dono do time a alterar a escalação minutos antes da entrada em campo?, intrigaram-se os Altos Companheiros. Lula só desvendou o mistério semanas depois da festa de posse: “Já no fim de 2002 apareceu lá uma companheira com um computadorzinho na mão”, contou com a placidez de quem está narrando uma história para crianças. era o Centro de Treinamento do BB. “Começamos a discutir e percebi que ela tinha um diferencial dos demais, porque ela vinha com a praticidade do exercício da secretaria. Aí eu fiquei pensando: acho que já encontrei a minha ministra”.

Simples assim. Se Dilma Rousseff era secretária do governador Olívio Dutra, por que não promover a ministra a companheira do computadorzinho portátil? O maior governante desde a chegada das caravelas entende de minas e energia tanto quanto entende de gramática e ortografia. Como Dilma não entende do assunto muito mais que o chefe, do que teriam tratado nas conversas a dois? O que teria ouvido Lula para dispensar-se de consultas a especialistas no ramo e pedidos de informações a quem a conhecia menos superficialmente?

Em 2007, ela resumiu em duas frases o que os dois conversaram: “O presidente perguntou como tinha sido o apagão do Fernando Henrique no Rio Grande do Sul, e eu contei que lá não teve apagão”. Mitômanos, quando não mentem simplesmente, contam só um pedaço da verdade. Sim, os gaúchos não tiveram de racionar energia em 2001. Nem os catarinenses e os paranaenses, Dilma deixou de dizer. Como não faltaram chuvas, tampouco faltou água nos reservatórios da hidrelétricas da região sul. Os três Estados escaparam das medidas de emergência não pela competência dos secretários estaduais, mas pela clemência da natureza.

Sem chances de concorrer com quem derrotara até o apagão, restou a Pinguelli conformar-se com  a presidência da Eletrobrás. Caiu fora em pouco tempo para afastar-se do crônico mau humor da ministra. “Essa moça formata o disquete a cada semana”, ironizou. “Nunca tive simpatia pela maneira como Dilma trata as pessoas”, diz o professor Ildo Sauer, demitido pela ministra da Diretoria de Gás e Energia da Petrobras. “Ela não conversa, só dá ordens. Mas é um doce com quem está acima dela”. Como a guerrilheira obediente aos comandantes dos grupos clandestinos, como a mulher dócil no trato com os maridos, como a secretária que nem piava nas reuniões do governo gaúcho, a ministra sempre sabe com quem está falando.

Os interlocutores de Dilma Rousseff acreditaram durante muitos anos que falavam com uma sumidade em economia. Em 2005, transferida do Ministério de Minas e Energia para o gabinete do qual José Dirceu fora despejado pelo mensalão, o site da Casa Civil manteve no currículo oficial duas informações fraudulentas que enfeitavam a biografia da nova chefe. Ali se lia que Dilma era mestre em teoria econômica pela Universidade de Campinas (Unicamp) e doutoranda em economia monetária e financeira pela mesma universidade”. Nunca foi nem uma coisa nem outra, descobriu a imprensa em julho de 2009. Ela jamais pediu desculpas pela trapaça.

Num e-mail endereçado a amigos, Ildo Sauer confessou que foi uma das vítimas da vigarice forjada pela doutora em nada. No fim de 2002, os integrantes do grupo de energia do Instituto Cidadania, vinculado ao PT, entregaram seus currículos atualizados à direção da entidade. Sauer leu o apresentado por Dilma e, bem impressionado, quis saber se tinha concluído o curso de doutorado. Diante da resposta positiva, perguntou se Dilma toparia participar da banca que examinaria a tese de um candidato a doutor. “Não tenho tempo para essas coisas”, recusou com rispidez a convidada.

“Hoje compreendo”, disse Sauer na mensagem pela internet. “O desprezo e o desdém eram ferramentas para encobrir a impostura… Há outras”. Quais seriam? Sauer acha que ainda é cedo para divulgá-las. “O que já se sabe é suficiente para mostrar que Dilma não é nada do que se imaginava”, explica. Dilma Rousseff é só uma fraude.

A supergerente também achou conveniente omitir da biografia oficial a experiência de um ano e cinco meses à frente da Pão & Circo, loja de bugigangas localizada na região central de Porto Alegre, com filial no centro comercial Olaria, também na capital gaúcha. Registrada para comercializar “confecções, eletrônicos, tapeçaria, livros, bebidas, tabaco, bijuterias, flores naturais e artificiais, vendidos a preços módicos”, como descreveu uma reportagem da Folha em agosto de 2010, a empresa tinha como forte os brinquedos – “particularmente os dos ‘Cavaleiros do Zodíaco’”, animação japonesa sobre jovens guerreiros que fez sucesso nos anos 1990.

Ao lado da ex-cunhada Sirlei Araújo, Dilma viajou ao Panamá “umas duas ou três vezes” — contou Sirlei — para escolher as mercadorias, que eram despachadas de navio até Imbituba (RS) e seguiam depois por terra até a capital gaúcha. Também participavam da sociedade Carlos Araújo, ex-marido de Dilma, e um sobrinho, João Vicente.

Os comerciantes mais antigos do Olaria, lembravam perfeitamente do fiasco. “A gente esperava uma loja com artigos diferenciados, mas, quando ela abriu, era tipo R$ 1,99. Eram uns cacarecos”, recordou Bruno Kappaun, dono de uma tabacaria no local. “A loja era mal-acabada, com divisórias de tábua, um troço rústico. E, claro, não entrava ninguém ali”, disse Ênio da Costa Teixeira, proprietário de uma pizzaria. Um terceiro comerciante, André Onofre, acha que a loja não teve viabilidade econômica porque as “bugigangas” eram “muito baratas”. “Foi uma experiência. Acho que ela não era do ramo”.

Sirlei contou que Dilma cuidava sobretudo da contabilidade e das vendas. A presidente que inventou o Ministério da Micro e Pequena Empresa, levou menos de dois anos para falir o próprio negócio.

Leia o primeiro (O histórico da guerrilheira tem mais codinomes que tiroteios) e o segundo capítulo da série (Brizola confessou que nunca entendeu direito o que dizia aquela mineira que trocou o PDT por uma secretaria no governo do PT)

Arquivado em:Brasil, Política

Anexos originais:

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