"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 7 de julho de 2017

A MARCHA DA DESFAÇATEZ


Luiz Sérgio Silveira Costa

Pleno de holofotes, câmeras e filmadoras, foi teatral e midiática a entrega à Câmara, pelo advogado de Temer, do arrazoado da defesa, apenas mais do mesmo, em cerca de 100 páginas repetidas à exaustão de que “não há provas”, “a denúncia é uma peça de ficção”...Parece que os advogados do escritório, cada um deles escreveu uma parte, depois juntadas, sem a preocupação de evitar as superposições, ou fazer uma revisão qualificada. 

Naquele almanaque de repetições, vale dizer:

- o mantra é o conhecido “não há provas”, usado por criminosos e seus advogados, as consciências de aluguel, tudo por um dindim, algum, tutu, grana, bufunfa, merreca, capim, assim mesmo repetido, como eles fazem nas suas argumentações que desmerecem a inteligência, sabedoria e o conhecimento alheio. O “não há provas”, no entanto, é uma clara confissão de culpa, pois, se houvesse certeza da inocência, eles diriam “é inocente”. Mas não dizem isso, apenas o “não há provas”. É como, sabendo que são culpados, lançassem um desafio: ”Então provem que ele é culpado!” 

Só faltou repetir a hipócrita e recente frase do Lula: “Se eu for condenado, não vale a pena ser honesto neste país”...

- outra expressão que, em época de Lava-Jato, se tornou corriqueira é que a acusação é “uma peça de ficção“. Típico transtorno psiquiátrico, a transferência, pois a defesa é que, na realidade, é uma peça de ficção;

- outra pérola é que o presidente é ”honrado” e tem ”trajetória imaculada”, como se isso não fosse óbvio. Ou se admitiria que um presidente fosse desonrado e maculado. Lembra aquela piada do candidato a deputado, cuja campanha usava o mote: “Vote em fulano de tal, número 1172! O milhar é do porco, mas o homem é limpo...”;

- e, do bambuzal de lugares comuns, lançou a envergonhada flecha final, de que “a acusação não é contra um cidadão comum, mas contra o presidente e contra o Brasil”, como se todos não fossem iguais perante a lei, ou se o presidente tivesse o privilégio de poder roubar. Foi uma evidente argumentação à falta de outras, se desviando do foco, fugindo da fulanização e apelando para a generalização; não é um ataque ao Temer, mas, pior, ao presidente!. Foi um tiro no pé, pois pareceu dizer que o Temer pode até ser criminalizado, mas não o presidente.., 

E, com que direito e presunção acha que é contra o Brasil?

O advogado, com seu cabelo, bigode, sobrancelhas, óculos e anéis old fashioned, um “belo tipo faceiro que o senhor tem a seu lado”, no caso, do mesmo estilo, o Temer, ainda teve o desplante de dizer que, além de não haver provas, não há sequer indícios!!! Como, Pedro Bó??? E o vergonhoso encontro de Temer com Joesley, não no palácio do Planalto, durante o dia, com agenda disseminada, mas na calada da noite, no porão de seu palácio residencial, fora da agenda e com cuidados e subterfúgios de algo pecaminoso? Encontro esse que seu cliente, advogado, uma velha raposa da Velha Política, nem teve a esperteza de imaginar que poderia ser gravado. Esse ingênuo, esse Forest Gump do porto de Santos, é que é, qual Sarney, um cidadão incomum? 

Naquela gravação, ficou claro Joesley pedindo ajuda para resolver uma pendência da J&S no governo: “Fale com o Rodrigo”, disse Temer. “Posso falar tudo com ele?” questionou, surpreso, Joesley. “Tudo”, repetiu Temer! E, seis dias depois, Joesley se encontrou com Rodrigo Rocha Loures, na casa deste, em São Paulo, quando disse que precisava resolver problemas de suas empresas de órgãos como Cade, CVM, Receita Federal, Banco Central e Procuradoria da Fazenda Nacional, e que o governo precisava colocar naqueles postos pessoas que pudessem destravar os negócios do grupo J&S...

Nada sobre isso, advogado?

E o Rocha Loures (RL), no filme do ano, todos os dias na TV, saindo rapidamente de uma pizzaria, jogando a mala (com R$500 mil), no porta-malas do táxi que o esperava, assustado, olhando para todos os lados, antes de entrar no carro...? E o delator Ricardo Saud, executivo da J&F, que contou aos procuradores que, apesar de o deputado RL ter sido indicado para ajudar nos interesses da empresa, “a negociação da propina era feita diretamente com o presidente Temer, e que RL foi apenas um mensageiro que Michel Temer mandou para conversar com a gente, para resolver os nossos problemas e para receber o dinheiro dele”.

Nada causídico, nada a dizer?

E nada sobre a razão de um obscuro parlamentar receber R$500 mil? A troco de quê? Não é licito supor que sendo assessor de Temer, ser confiável, “uma pessoa decente”, segundo Temer, e poder tratar de “tudo” com Joesley, que seria o recebedor da propina do Temer, assim como o primo do Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, era o seu recebedor?

Nada, advogado, nem uma virgula sobre isso?

E, agora, num passe de mágica, numa desfaçatez ilimitada, apareceu uma nova versão, de que não era Joesley que era esperado no palácio Jaburu, mas Rocha Loures, e que, por isso, não havia registro da placa do carro e da ida do Joesley, mas do Rodrigo, naturalmente um visitante habitual de Temer.... Mas se foi o Joesley que surgiu e, como Temer disse que Joesley é “um bandido notório”, por que então, recebê-lo?

E aí, advogado, nada, só um silêncio ensurdecedor? 

Há poucos dias, na verdade dia 1º de julho, dia seguinte ao que a presidente do STF, Carmen Lúcia, discursou pelo inicio do recesso judiciário, mandei a seguinte carta a O Globo, que não publicou:

“Verba volant, scripta manent, citava Temer o provérbio em Latim. Mas é impreciso, pois até as palavras escritas voam. O que não voa são as atitudes tomadas. No momento em que Marco Aurélio devolve todas as prerrogativas a Aécio, e Fachin solta Rocha Loures, Carmem Lúcia escreve e diz que “o clamor por justiça não será ignorado nesta Casa”, e haverá “atuação rigorosa para manter a esperança de justiça”. Como se vê, neste pobre país, até o provérbio foi customizado, virando verba et scripta volant...

Por isso, li, com satisfação, uma mensagem atribuída ao ex- ministro da Cultura, Marcelo Calero, que pediu exoneração do cargo e denunciou o papudo, e guloso1, Geddel, no caso do apê na Bahia:

“Apenas em um país profundamente doente um deputado é flagrado recebendo uma mala de dinheiro, e permanece solto.

Apenas em um país profundamente doente um senador da República é flagrado combinando propina, e permanece em liberdade.

Apenas em um país profundamente doente o presidente é flagrado em evidente prevaricação, e permanece presidente.

Apenas em um país profundamente doente existem partidos e políticos que se dispõem a defender o deputado da mala, o senador da propina e o presidente da prevaricação”.

Pobre País!

Rio de janeiro, 6 de julho de 2017
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1- Uma vida de mutretas, desde o seu primeiro emprego, aos 25 anos, quando foi acusado de desviar milhões do Baneb (Banco do Estado da Bahia) e beneficiar sua família. Só neste país doente...

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