"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sábado, 29 de julho de 2017

ALERTA TOTAL - A quem interessa a “Intervenção” no RJ?

A quem interessa a “Intervenção” no RJ?:
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Edição do Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Jorge Serrão - serrao@alertatotal.net

O plano de segurança pública para o Rio de Janeiro tem chance de dar certo? Claro que tem! A torcida precisa ser otimista. A análise objetiva, nem tanto. Até porque existem condições sociais e estruturais do Estado que podem causar o fracasso. Primeira: o crime se organizou, alastrou e consolidou em conivência com a classe política e os poderes estatais. Segunda: as pessoas (cidadãos comuns) são passivas. Não promovem uma reação orgânica, declarada e aberta, contra a bandidagem - seja aquela “pé de chinelo” do narcotráfico – que lota cadeias - ou seus parceiros políticos e “investidores” (lavadores de dinheiro da zelite).

Os dois filmes “Tropa de Elite”, do José Padilha, desenham, direitinho ou esquerdinho, como funciona o “mecanismo” do Crime Institucionalizado no Rio de Janeiro. A guerra não-declarada gera medo e tensão social. É chocante a quantidade de vítimas - civis e policiais-militares assassinados pela narcoguerrilha urbana. Também apavora o conflito aberto, por disputa de espaço no mercado, entre facções criminosas que se estruturam como sofisticadas empresas mercantis de drogas, armas e outras atividades ilícitas. E vale repetir e insistir: assusta, mais ainda, a incapacidade das pessoas na reação efetiva contra a bandidagem profissional que tomou de assalto a máquina estatal.

O RJ tem um ex-governador preso por vários crimes ligados à corrupção. Atual bibliotecário na cadeia, Sérgio Cabral Filho, no entanto, é hoje um grande bode expiatório. Outros peixes grandes deveriam estar guardados no mesmo lugar que ele. Mais uma vez, assistimos ao vergonhoso rigor seletivo. Perseguem-se alguns e poupam-se outros delinqüentes da zelite política. Na próxima eleição, alguém parecido assume o Palácio Guanabara... Assim, a máquina criminosa, apesar de exposta, continua atuante. Inclusive, se reinventa para seguir operando nas áreas carentes, na esfera policial, no ambiente prisional e nos poderosos espaços palacianos do Executivo, Legislativo e Judiciário.

O RJ não é a Venezuela – ao menos por enquanto... Lá, a população reage contra a ditadura do crime. O povo enfrenta, abertamente, a tropa miliciana do regime bolivariano de Hugo Chavez - mais vivo que nunca na personalidade ideologicamente doentia de Nicolas Maduro. Lá chega ao ápice a combinação explosiva entre crise econômica e violência descontrolada, sob regime de um Estado-Ladrão descaradamente populista. Os venezuelanos sequer podem pedir socorro às suas forçar armadas para uma legítima intervenção contra o crime...

No Brasil é diferente. Há uns 10 anos, pouco mais ou pouco menos, virou “mania” convocar as Forças Armadas (amadas ou não) para “intervir” no problema estrutural da violência pública no Rio de Janeiro. Já houve várias experiências, desde ações de patrulhamento até ocupações por prazo determinado. Nos grandes eventos esportivos sediados no RJ, houve providenciais tréguas da narcoguerrilha diante da presença de tropas do Exército, Marinha, Aeronáutica e daquela absolutamente inconstitucional “Força Nacional de Segurança”. No entanto, terminadas as competições, a bandidagem pé-de-chinelo volta a agir com toda força, assaltando pessoas, roubando cargas, praticando latrocínios, assassinando policiais, lucrando com atividades relacionadas ao narcotráfico e, também, ajudando a eleger ilustres bandidos que ocupam cargos públicos.

A “intervenção” que Michel Temer promove agora, mobilizando 10.200 militares e afins, atende a algumas “conveniências”. O Presidente quer tirar o foco do noticiário sobre seus problemas políticos. Além disso, também quer mostrar que seu governo consegue fazer “alguma coisa”, neste enxugamento de gelo dos aparelhos repressivos estatais contra uma bandidagem que é parceira dos criminosos que infestam essa mesma máquina estatal. Isto não é um paradoxo. É puro pragmatismo cínico que rende “ibope” no noticiário...

O “plano” também atende aos interesses imediatos das Forças Armadas. A cúpula de generais se divide sobre a possibilidade de uma “intervenção” (constitucional, institucional ou qualquer termo que se empregue). A maioria prefere não ser obrigada a concordar com uma “intervenção”. Mesmo assim, “quando convocadas pelos poderes constituídos”, as Forças Armadas aceitam entrar no jogo de enxuga-gelo. O motivo também é pragmático (sem ser tão cínico). Sem verbas até para fornecer comida diariamente para a tropa e operando em regime de meio-expediente ou folgas intercaladas em dias da semana, Exército, Marinha e Aeronáutica recebem reforços orçamentários para cumprir tais “missões” como as do RJ.    

Agora, na presente “intervenção”, torna-se (no mínimo) interessante ouvir do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, General de Exército Sérgio Ethegoyen, que o Rio de Janeiro será um “laboratório”... A pergunta cabível é: laboratório para quais “experiências”? Sem penetrar no âmago de alguma resposta, no mínimo, além de injetar recursos no cofrinho esvaziado das legiões, a nova “Operação RJ” atende a dois objetivos práticos.

Primeiro, treina as tropas na doutrina da “Garantia da Lei e da Ordem” (a famosa GLO - invocada quando ocorre o esgotamento das forças tradicionais de segurança pública, em graves situações de perturbação da ordem). Segundo, ajuda a reforçar a boa imagem das Forças Armadas perante a opinião pública. Vale destacar que os militares brasileiros são alvos permanentes de uma guerra ideológica que tenta – mas não consegue – destruir sua imagem de instituição permanente garantidora da existência da Nação.

Os inimigos ideológicos das Forças Armadas já estão na torcida para que a atuação deles no violento Rio de Janeiro cometa “abusos contra os direitos humanos”. Os chefões e chefetes do narcotráfico também apostam nesta possibilidade que tem chances enormes de ocorrer – ou ser provocada pela ação teatral da bandidagem combinada com a conivência da maioria da mídia imbecilizada ideologicamente. Todo mundo também sabe – inclusive os Generais que têm o dever de saber de tudo – que a atividade econômica do narcotráfico não é afetada pela mera repressão armada, mas sim pelo corte no consumo (que não perece ser a tendência do momento).

Assim, só nos resta aguardar os novos acontecimentos... Também é fundamental torcer muito para que a repressão no RJ não force uma imigração dos efetivos do narcovarejo de lá para outros estados – o que já vem acontecendo – ou que o enfraquecimento da marginalia carioca-fluminense facilite a invasão territorial (que já ocorre) de facções mais poderosas, como o Primeiro Comando da Capital (o PCC) que já conseguiu a façanha histórica de paralisar São Paulo em 15 de maio de 2006.       

Vale repetir: A guerra civil não declarada no Brasil vai atingir seu ponto eletrizante (e provavelmente, mais violento) com o plano de segurança pública que vai vigorar no Rio de Janeiro. O previsível é que tendem a não dar certo “intervenções pontuais”, sem uma profunda intervenção estrutural na máquina pública que retroalimenta o Crime e na sociedade que sofre, mas também é conivente se beneficia, cinicamente, das diversas organizações criminosas.

Enfim, o “laboratório” volta a funcionar... Aguardemos pelas conseqüências... Boas, nem tanto ou ruins das “experiências”... Enquanto isso, seguimos na folia criminosa no Brasil...


O Alerta Total tem a missão de praticar um Jornalismo Independente, analítico e provocador de novos valores humanos, pela análise política e estratégica, com conhecimento criativo, informação fidedigna e verdade objetiva. Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog Alerta Total: www.alertatotal.net. Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos. 

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© Jorge Serrão. Edição do Blog Alerta Total de 29 de Julho de 2017.

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