"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

ENQUANTO FINJO (e AGONIZO)



ENQUANTO FINJO (e AGONIZO)

Milton Pires


Enquanto finjo me falta sono,
me sobram dívidas e atrasam
contas. Não durmo com os gritos,
ruídos e as sirenes, alarmes dos
aparelhos, as campainhas e as
agressões…


Me crescem filhos que são estranhos
tantos foram os Natais, os réveillons,
os carnavais, aniversários dos meus
plantões…


Fingi minha mocidade nos necrotérios e
laboratórios, nas emergências dos hospitais,
virando noites por sobre livros, temendo
as provas e os estágios, teses, as residências,
e avaliações…


Nos corredores meu passo é rápido,
cabeça baixa, olhar vazio por entre
partos com sofrimento, dispnéicos
nebulizáveis, paradas dos hipotensos,
abstinências ignoradas, convulsões da
glicose zero nas macas de entubações…


Me fitam olhos dos inocentes, amputados
e desvalidos no chão deitados, cegos que
aguardam leitos pelas cadeiras no chão
pregadas, politizadas no “acolhimento”
das urnas nas eleições…


Brasileiros de toda parte: novos, velhos,
estudantes aposentados, gente arrogante
de tão humilde, “trabalhadores” de sindicato
de mim imploram um parecer, um resultado
dos seus exames, as altas e baixas, os atestados,
as prescrições…


Chefiado sou pela inveja daquelas
que eu superei: tudo em mim é erro,
preconceito e ambição, motivo de
outra denúncia, “raiva dos pobres”… 

“corporações”…

Sindicâncias se me acumulam
e branca se torna a barba enquanto
peso (não só do corpo) do próprio
tempo me cobra o preço de enfim
partir...


Convenço os outros de
que eu não fingi...

aos meus colegas,
médicos brasileiros.


julho de 2017.

Um comentário:

Sua mensagem será avaliada pelos Editores do Ataque Aberto. Obrigado pela sua colaboração.