"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O Manifesto Comunista – A Face Transparente do Mal

O Manifesto Comunista – A Face Transparente do Mal:

Artigo no Alerta Total – www.alertatotal.net
Por Carlos I. S. Azambuja

O texto abaixo foi publicado no livro “Para Compreender o Fenômeno Brasileiro”, escrito pelo jornalista LUCAS BERLANZA. O livro propõe a apresentação do processo de ressurgimento de uma nova direita no Brasil por um compilado de ensaios sobre alguns dos clássicos do pensamento político ocidental, de autores já consagrados pelo tempo, mas também de outros em plena atividade criadora, num diálogo entre os mortos, os vivos e os que estão para nascer, dentro da lição fundamental do conservadorismo. Um antídoto contra a insanidade mental dominante, dos que odeiam a divergência e sequer imaginam que a Verdade é patrimônio de todos e de ninguém.--------------------------------
O marxismo figura entre as filosofias mais influentes da História. Poucos sistemas de pensamento produziram uma influência tão concreta sobre um período da trajetória humana. Os seus resultados, porém, são invariavelmente nefastos. Onde quer que as teses de Marx, Engels e seus seguidores foram implantadas, um rastro grotesco de sangue foi deixado. Os seus defensores insistem em desvincular os efeitos práticos dos fundamentos teóricos em que se baseiam.

“Marxismo? Socialismo? Isso nunca existiu na União Soviética. Não tem nada a ver com Pol Pot. Nada a ver com Mao. Todos são traidores da teoria original!”. Forçamo-nos a concordar, relativamente a alguns aspectos, que as experiências práticas tiveram algumas deformações em relação à formulação original. O maoísmo, por exemplo, apostou mais nos camponeses que na imaginária “revolução proletária”. O marxismo-leninismo dos bolcheviques inflou a relevância de um partido revolucionário, que, substituindo-se ao sistema burocrático do czarismo, fez muito pior.

No entanto, a despeito dessas transformações, todos os movimentos ainda são frutos de uma mesma árvore. Não é preciso muito esforço pra ver a face do mal, de forma transparente, exposta no pensamento dos fundadores desse sistema macabro. Está tudo lá, no texto introdutório dessa filosofia: O MANIFESTO COMUNISTA, lançado em 1848.
    
O marxismo se dirige ao mundo, nas primeiras páginas desse pequeno panfleto, mostrando nada mais, nada menos que as balizas nucleares da História. Tamanha era a pretensão que esses homens acreditaram ter encontrado a força motriz dos eventos que se sucedem no tempo: a luta de classes. As civilizações se movem pelo confronto de classes. Pouco importam a pluralidade e a subjetividade. O que tem relevância é se sou “proletário” ou “capitalista”, “rico” ou “pobre”, “senhor” ou “escravo”. A posição, o lugar, a classe, carregam consigo uma serie de condicionantes inescapáveis, reduzindo a criatura a quase um autômato. O marxismo já faz a sua saudação aos leitores com uma depreciação poucas vezes equiparada da dignidade humana.
    
Sobre a “burguesia”, a “classe” que instala o período capitalista, ela “afogou os êxtases sagrados do fervor religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas gélidas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e em nome das numerosas liberdades conquistadas, estabeleceu a implacável liberdade de comércio.

Em suma, substitui a exploração encoberta pelas ilusões religiosas e políticas, pela exploração aberta, única, direta e brutal”. Fica claro que, se os burgueses sepultaram o “sentimentalismo pequeno-burguês”, Marx fez nascer o “melodrama socialista”. Com suas tintas emocionais extremadas aplicadas a um cenário em que a escravidão e a servidão deram lugar a uma troca simples de serviços, em que recebemos o retorno financeiro pelos nossos esforços e estamos legalmente protegidos do açoite das chibatas ou do castigo das espadas.
    
Marx e Engels descrevem, em tom de estarrecimento, o processo de alastramento do capitalismo e do modo de vida burguês. Admiram-se de como a burguesia “arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização”, e de como os preços de suas mercadorias “formam a artilharia pesada com que destrói todas as muralhas da China, co que obriga à capitulação os bárbaros mais hostis aos estrangeiros”. Admiram-se de como ela força “sob pena de extinção, a adotarem o mundo burguês de produção: força-os a adotarem o que ela chama de civilização, isto é, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem”.

Admiram-se tanto do sucesso do capitalismo que chegam a exagerar suas implicações “revolucionárias”, como se ele fora um sistema de trocas econômicas incompatível com a existência de valores ou qualidades transcendentes ao material. Mas Marx não se admirou o suficiente para evitar que sua cabeça enxergasse um suposto declínio.
    
Viu o advento dos trabalhadores do sistema industrial o augúrio do ocaso capitalista. Acreditou que os operários já nasciam destinados a decretar esse fim; que a existência de ma hierarquia no funcionamento de uma empresa é análoga à escravidão, e uma escravidão muito mais ampla, pois faria dos proletários “escravos da máquina, do contramestre e, sobretudo, do próprio dono d fábrica”., em um despotismo que é “tanto mais mesquinho, mais odioso e mais exasperador quanto maior é a franqueza com que proclame ter no lucro seu objetivo e seu fim”.

Investir em algo que gere valor par determinado público e contratar pessoas para realizarem o projeto – é isso uma tirania mais terrível do que aquela que reduzia as pessoas a mercadorias, sem que elas próprias nada ganhassem. Os marxistas esquecem que os escravos enchiam os bolsos daquele que o vendia, enquanto o trabalhador assalariado, ao exercer se nobre esforço, recebe, ele próprio, o de que precisa para seu sustento. 
    
Sua idéia de que o proletariado “não tem propriedade; suas relações com sua mulher e seus filhos não tem nada em comum com a família burguesa; (...) a lei, a moral, a religião são para ele preconceitos burgueses”, se podia ser produto de uma miopia compreensível a quem pusesse os olhos sobre uma fase ainda incipiente do sistema capitalista, não tem qualquer sustentação na realidade se observarmos os operários e pessoas de menor renda de hoje. Não existe nenhum canto do mundo em que a maioria dos trabalhadores esteja consciente da necessidade absoluta de “abolir a forma de apropriação que lhes era própria e, portanto, toda e qualquer forma e apropriação”, muito menos que possa assentir ao saber que sua missão “é destruir todas as garantias e seguranças da propriedade individual”. O que querem é sempre melhorar de vida, aumentando as suas propriedades privadas.
    
Gênio retórico e ficcionista, Marx inventou um operário ideal, um mundo ideal, regido pelo que seria a sua lei ideal.Em esforço vão, tenta ainda estabelecer uma diferença entre a “propriedade pessoal” que seguiria existindo nas mãos do proletário em um mundo comunista, e a “propriedade privada” burguesa, fruto supostamente de um abuso. Isso acontece porque, ao contrário da totalidade dos autores liberais, como Hayek e Mises, ele ignorava o valor do trabalho individual do empresário, e acreditava que o retorno material de um produto dependeria, apenas. do esforço “explorado” da série dos envolvidos nos labores manuais que o constroem, e não no interesse que ele pode despertar em seu público, percebido de forma perspicaz por quem investe no negócio. Este último, detentor de uma certa idéia, arrisca seus recursos para implementá-la, gerando, com isso, o emprego que vai sustentar famílias inteiras. É curioso que Marx fez muito pouca coisa na vida mais do que desenvolver uma “grande idéia”, que serve até hoje par sustentar lunáticos.
    
A receita de Marx par atingir seus objetivos em países desenvolvidos não é mais sensata: 1) expropriação da propriedade territorial e emprego da renda em proveito do Estado; 2) imposto fortemente progressivo; 3) abolição do direito de herança; 4) confisco da propriedade de todos os emigrantes e sediciosos; 5) centralização do crédito nas mãos do Estado e com o monopólio exclusivo; 6) centralização dos meios de comunicação e transporte nas mãos do Estado; 7) multiplicação das fábricas e meios de produção possuídos pelo Estado; o cultivo das terras improdutivas e o aprimoramento do solo em geral, segundo um plano; 8) trabalho obrigatório para todos; estabelecimento de exércitos industriais, especialmente para a agricultura; 9) combinação da agricultura com as indústrias manufatureiras e a abolição gradual entre a cidade e o campo; 10) educação gratuita par todas as crianças.
    
Como podem hoje os tolos, diante de governos e partidos que concretizam uma agenda reproduzindo a maioria dos pontos nesta lista, rir dos “paranóicos” que lhes apontam os dedos e lhes chamam de comunistas? Ler O MANIFESTO e comparar com o que ocorre hoje, implica fazer a si mesmo a grande pergunta: a partir de que momento nos submetemos a essa criminosa anestesia moral e nos cegamos paa as verdades mais óbvias?
    
Só não somos mais ingênuos dos que aqueles que acreditam, como diziam Marx e Engels, que “quando, no curso do desenvolvimento, desaparecerem todas as distinções de classes e toda a produção concentrarem-se nas mãos d associação de toda a Nação, o poder público perderá seu caráter político” e “se o proletariado em sua luta contra a burguesia é forçado pelas circunstâncias a organizar-se em classe; se se torna, mediante uma revolução, em classe dominante, destruindo violentamente as antigas relações de produção, destrói com essas relações as condições dos antagonismos de classes em geral e, com isso, extingue a sua própria dominação como classe”.

Quis dizer o barbudo alemão, irado e implacável com a dominação dos patrões, que o ‘proletariado” – novamente esse personagem coletivo difuso – saquearia suas posses “ilegítimas”, pilharia suas realizações através de um inchaço de poder inimaginável da máquina do Estado e, depois disso, como por mágica, ele não tria mais poder. Provável que uma criança em idade pré-escolar não conceba estupidez tão singular. Mas o “maior filósofo do século XIX” conseguiu.
    
Em ação destinada à literatura socialista e comunista, Marx e Engels se dedicam a fazer um passeio enviesado pelo passando, elencando outros teóricos sociais que eles veriam como precursores da sua doutrina. Começam alvejando os aristocratas que esbravejaram conta as modernidades do capitalismo, apontando-lhes o obscurantismo que eles próprios ressuscitavam.

Depois, atingindo os chamados “utópicos”, taxaram-nos de “socialistas conservadores ou burgueses”. Economistas, filantropos, humanitários, os que procuram melhorar as condições da classe operária, os organizadores de beneficências, os membros de sociedades protetoras de animais, os fanáticos das sociedades de temperança, enfim, os reformadores de gabinete de toda categoria, são nada mais que agentes de alienação e “estupidificação”, que diriam eles hoje, diante da “esquerda festiva” de que falava Nelson Rodrigues e da “esquerda caviar” admiravelmente denunciada por Rodrigo Constantino em seu best-seller?
    
Marx e Engels terminam definindo suas posições a respeito de todos os movimentos e partidos de oposição, alegando que não vêem problema em formalizar alianças circunstâncias, desde que não se perca de vista o objetivo maior: despertar no proletariado sua consciência de classe revolucionária.
    
É impossível passar os olhos sobre o Manifesto Comunista, saber que é lido em coleios do país inteiro e do mundo, e não se questionar como as pessoas não conseguem ler nessas linhas o horror que elas preconizam? O texto inteiro nada mais é que um pretexto para cuspir a revolta mais infantil. Falta ao marxismo, de cientificidade, e substância de ele tem de irracionalidade. Em tempo algum, desde que surgiu, ele conquistou as pessoas pela lógica que lhe é inerente, pois não há nenhuma. Seduziu, apenas, pelo apelo que faz aos sentimentos mais nefastos eu caracterizam a afobação humana.
Carlos I. S. Azambuja é Historiador.


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