"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Os engravatados e a saúde pública


Durante recente fiscalização em hospital do Interior, um paciente em traje humilde, ao perceber a movimentação dos fiscais do Cremers seguidos pela imprensa, desabafou:

- Vocês, engravatados, nunca resolvem nada. Vão embora e nós continuamos aqui sofrendo para ter atendimento.

A frase era um protesto, mas acima de tudo um pedido de socorro. É assim que sentem aqueles que dependem do sistema público de saúde, cada vez mais precarizado em função de financiamento insuficiente, má gestão de recursos e principalmente pelo mal que se instalou no Brasil, a corrupção.

Em artigo publicado no dia 9 de agosto, em ZH, a senadora Ana Amélia Lemos cita que a Controladoria Geral da União constatou desvios superiores a R$ 5 bilhões na saúde pública no período de 2012 a 2015 (27,3% do total de irregularidades em toda a administração federal).

O resultado do assalto inclemente aos cofres públicos, vide as denúncias da Operação Lava-Jato, conforme refere a senadora, é a causa da destruição e caos em que se encontra a assistência pública de saúde do País, penalizando toda a população, principalmente a mais carente.

O orçamento da saúde pública muito aquém das necessidades reais, fruto de uma política que não coloca a saúde como prioridade, diminui ainda mais pelo assalto constante praticado pelos corruptos, que permanecem impunes frente aos crimes perpetrados contra a saúde dos brasileiros.

O Cremers envia suas equipes de fiscalização para vistoriar hospitais, pronto-atendimentos, UBSs e UPAs, que se encontram em situação mais crítica, todos atravessando enormes dificuldades para manter portas abertas diante do combalido e reduzido orçamento.

É difícil encontrar um hospital, prioritariamente SUS, que não apresente graves dificuldades operacionais, falta de medicamentos, falta de material e equipamentos, e que não esteja com a remuneração de médicos e trabalhadores em atraso de vários meses.

Em linhas gerais, é o quadro comum das instituições fiscalizadas nos últimos meses. Nesta edição da Revista Cremers, destacamos vistorias feitas em unidades importantes como Santa Casa de Livramento, Postão 24 Horas e UBSs de Caxias do Sul, Hospital Bom Jesus de Taquara, todos com indicativo de interdição ética do trabalho médico.

A interdição é uma medida extrema aplicada quando a instituição, apesar da fiscalização e orientação do Conselho, continua operando sem condições mínimas para o trabalho médico e coloca em perigo a população.

O trabalho do Cremers tem encontrado no Ministério Público um aliado importante e igualmente interessado em corrigir as distorções verificadas nos locais fiscalizados.

Sem a caneta, sem a chave do cofre, e não podendo fiscalizar o destino das verbas públicas, cabe aos ‘engravatados’ do Cremers fazer a sua parte na ponta do sistema, trabalhando em defesa do exercício ético da medicina e na busca de uma assistência digna de saúde para todos.

Cabe a outros ‘engravatados’ equacionar questões que envolvam aumento do orçamento e gestão dos recursos, além de dar um basta à corrupção. O primeiro passo poderia ser trocar, de vez em quando, os confortáveis gabinetes da ‘ilha da fantasia’ pela realidade amarga das emergências e das instalações dos hospitais da rede pública.

Dr. Fernando Weber Matos
Presidente do Cremers




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