"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

domingo, 11 de dezembro de 2016

APOLOGIA DA FORMA - RESPOSTA AO REINALDO AZEVEDO

O diabo no comando. E o que ameaça a democracia brasileira

Sim, viveremos dias de grande turbulência, tendo como atores representantes de Poderes constituídos que perderam a noção de seu papel institucional

Por Reinaldo Azevedo

10 dez 2016, 18h33 - Atualizado em 10 dez 2016, 21h43



O Coisa-Ruim tomou contra do processo: não se distingue mais decisão justa de safadeza...

O diabo estava gostando do jogo há três lances. Agora, ele já está no comando da mesa, cacifado por crises múltiplas, e a maior delas, sem dúvida, é o petrolão. A sangria não tem fim. E está muito longe de terminar. A VEJA desta semana traz detalhes da íntegra dos anexos da delação premiada que Cláudio Mello Filho entregou à Procuradoria- Geral da República. Quem é ele? Ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht na capital federal. Atenção! Há 70 pessoas ligadas à empresa colaborando com as investigações. A terra treme.

Já brinquei aqui que Brasília vivia uma síndrome que apelidei de TPO: Tensão Pré-Odebrecht. Já temos noção do aperitivo de nitroglicerina pura. A delação ainda não foi homologada por Teori Zavascki, relator do petrolão. Mas é claro que será.

O conteúdo mais grave desse vazamento — e não é por acaso que seja esse, não outro, a vir à luz agora — é a acusação de que o então vice-presidente, Michel Temer, teria pedido a Marcelo Odebrecht uma ajuda de R$ 10 milhões para o PMDB. O Planalto não nega a conversa. E a contribuição, diz, está devidamente declarada ao TSE e teria sido operada por transferência bancária.

A versão de Mello filho é mais apimentada. Segundo afirma, a contribuição foi feita em dinheiro vivo — os peemedebistas dizem ser mentira — e distribuída da seguinte maneira: R$ 6 milhões para Paulo Skaf, que concorreu à Prefeitura de São Paulo pelo PMDB, e R$ 4 milhões para três destinos. Uma parcela teria ido para o escritório de advocacia de Eliseu Padilha, chefe da Casa Civil; uma segunda, para o de José Yunes, amigo pessoal de Temer, e uma terceira, no valor de R$ 1 milhão, para Eduardo Cunha, aquele…

Os vazamentos já colheram José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Lula… E isso significa que foram engolfados PMDB, PSDB, PT e, como se sabe, a quase totalidade dos partidos.

Revolução ou reforma?

A resposta mais óbvia, nesse caso, é também a errada.

Todas as crises do passado, em algum momento, encontraram como limite uma âncora — para avançar ou para recuar institucionalmente. Mas âncora ainda assim. Desta feita, só o que se tem é o mar da incerteza se atirando contra o que resta de confiança no processo político.

Quando até uma decisão certa de um tribunal — como foi a derrubada da liminar ilegal de Marco Aurélio — é vista como uma manobra escusa, estamos diante de um sinal de que o combate à corrupção está virando uma espécie de doença autoimune: os mecanismos de defesa estão atacando o próprio organismo. Já não se distingue o funcionamento normal do sistema de elementos patogênicos.

Acordão?

“Está querendo acordão, Reinaldo?” Isso é uma ignomínia! Que a Lava Jato continue livre para fazer o seu trabalho, como sempre foi, aliás — e as consequências de suas ações provam isso.

Não! O único acordo a se fazer é com a lei. E fim de papo. Parece-me evidente que o país não vai suportar, sem graves sortilégios, esse permanente minar da confiança. O ideal seria que a delação da Odebrecht, por mais escalafobética, fosse conhecida de uma vez só, tornada pública na Internet, para que os marcianos soubessem com quem ainda podem conversar.

Acho que estou sendo claro. Essa tática de conta-gotas — e ainda faltam 68 ou 69 delatores, não? — impede qualquer planejamento; destrói as chances de investimento; eleva o pessimismo; assusta os agentes econômicos, que, então, preferem se proteger.

E notem que não estou propondo acordão, conversa, conciliábulo, nada disso. Estou só reivindicando que se cumpra a lei para que os órgãos de polícia sigam, sem qualquer interferência indevida, fazendo o seu trabalho, mas que se recupere algum espaço de ação para o domínio da política — tanto a política entendida como exercício legítimo de pressões como a política econômica.

Poucos se dão conta — e os dias futuros, nos primeiros meses de 2017, deixarão claro ser assim — que as esquerdas, e o PT em particular, está prestes a assumir um lugar privilegiado na narrativa. A esta altura, resta bastante arranhada a tese, QUE É A CORRETA, de que a corrupção e a propina eram instrumentos a que recorria o PT para fazer algo mais do que roubar: era um assalto ao estado, inclusive ao estado de direito.

Essa constatação foi perdendo força, sendo substituída pela evidência factual de que, afinal, todos os partidos fazem a mesma coisa. Ocorre que essa obviedade toma os meios como se fosse um fim. Roubar e trapacear como meio será ruim em qualquer tempo, e seus protagonistas devem ser punidos. Mas perder de vista a natureza da tramoia petista é falsear a história e abrir uma vereda para o PT se igualar a outras legendas entre os escombros. Se é assim, o partido é apenas um entre seus pares.

Balbúrdia

A balbúrdia nas redes indica bem o espírito do tempo. Felizmente, inexiste hoje no mundo e entre as elites políticas nativas a ilusão de que se pode resolver tudo com um murro na mesa — que seria dado necessariamente contra a política. Não teremos um golpe, é certo.

Mas os valores hoje influentes tampouco se mostram dispostos a tolerar prerrogativas que não pertencem aos políticos, esses “seres nefastos”.

Sim, viveremos dias de grande turbulência, tendo como atores representantes de Poderes constituídos que perderam a noção de seu papel institucional

Não se esqueçam: países não são botecos e não entram em falência. Não fecham as portas. Eles podem piorar indefinidamente.

A democracia brasileira não está correndo risco porque pode vir a ser colhida por um golpe. Também não está sendo ameaçada pela Lava Jato. O que nos espreita é a bagunça generalizada.

RESPOSTA DO EDITOR DO ATAQUE ABERTO AO REINALDO AZEVEDO 

O que Reinaldo NÃO diz é que a decisão que MANTEVE Renan na Presidência do Senado Federal não foi tomada por uma questão de "respeito à Lei" - foi medo de que o cangaceiro, uma vez acuado, revelasse a participação dos bandidos do STF na Organização Criminosa que tomou conta do Brasil. 

Já li muita barbaridade escrita por comentarista político, mas é a primeira vez que alguém ousa dizer que o "combate à corrupção pode voltar-se contra a Democracia e o Estado de Direito imitando uma patologia autoimune" - isso é de uma desonestidade intelectual que só pode ser cara àqueles que gostam de citar o "espírito do tempo" - verdadeiro absurdo inventado num surto esquizôfrenico por Hegel na ocasião em que elaborava a sua "Fenomenologia do Espírito" 

A apologia da Forma, a integridade absoluta do Rito, as minúcias do Processo são o que interessam ao senhor Reinaldo Azevedo - dane-se à Justiça se ela ameaça isso que ele acredita que ainda exista e que  chama de Institucionalidade ! 

Para Reinaldo, a Lava Jato vai, inevitavelmente jogar fora a água da banheira com o bebê dentro, não é ???

É o Bebê de Rosemary, Reinaldo ! 

Como gostava de dizer Fidel Castro (já que você citou Hegel) - A História me Julgará....(e julgará também o Brasil) 

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