"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O Brasil como Campo de Concentração: A Sociedade da Indiferença e a Crítica da Moral Nacional.


por Milton Pires

Este pequeno artigo tem, como tema geral, os massacres que aconteceram no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) em Manaus, no dia primeiro de janeiro de 2017, e na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, no dia 14 de janeiro do mesmo ano. O que se pretende enfocar é a reação da sociedade nas chamadas Redes Socias. 

Desnecessário, portanto, dizer que se engana todo aquele que buscar aqui a celebração das mortes ou o discurso dos “direitos humanos”. Tampouco pretendo abordar a história do crime organizado no país ou os motivos capazes de deflagrar a carnificina que a Nação assistiu.

Desde que começaram, as reações mais comuns aos massacres nas redes sociais tem sido no sentido de deixar claro que a sociedade brasileira “não se importa” e que “bandido bom é bandido morto”. 

Tal ideia parte, antes e obrigatoriamente, do princípio de que poderiam existir coisas com as quais esta mesma sociedade “se importaria”, horrores, cenas da tragédia da vida coletiva, que não nos poderiam deixar indiferentes. Seria isso verdade?

Vejamos: o Brasil não se importa com os campos de concentração nas emergências do SUS, com falsos médicos cubanos, com as crianças aprendendo a fumar maconha, portando armas e dançando funk nas escolas públicas, com as imagens de Nossa Senhora introduzidas no ânus de “manifestantes” nas calçadas de Copacabana nem com os funcionários públicos recebendo cestas básicas. Não se importa com juízes do Supremo Tribunal Federal trabalhando abertamente para Organização Criminosa que atende pela alcunha de Partido dos Trabalhadores, com um marginal ex-presidente debochando publicamente dos tribunais nem com um Presidente do Senado se negando a receber ordem judicial.

O Brasil não se importa com as ruas trancadas por terroristas disfarçados de manifestantes, não se importa com ônibus incendiados nem com bancos, lojas e estabelecimentos destruídos. 

O país não se importa com policiais se suicidando, médicos se tornando alcoólatras e usando drogas nem com professores vendendo cachorro-quente para sobreviver. A Nação não se importa com os aposentados morrendo nas filas do INSS, com recém nascidos enrolados em sacos de lixo para se aquecer nos hospitais nem com vereadores saindo da prisão para tomar posse acompanhados por policiais. 

Com o que, pergunto eu, o Brasil se importa?? O que é capaz de chocar, de estarrecer a nação ?? NADA ! O brasileiro médio não se importa com coisa alguma.

Assim sendo, não é verdade que a sociedade brasileira, ao dizer nas redes sociais que “não se importa com a morte de vagabundos”, importe-se com a morte (ou com a vida) dos “não vagabundos”

A História recente não nos dá muitos precedentes para aquilo que aconteceu em Manaus e Alcaçuz – pelo menos não fora dos campos de batalha e daquilo que se convenciona chamar “crime de guerra” nos campos de concentração.

A comparação com os atos do Estado Islâmico (ISIS) não procede: o ISIS só consegue fazer o que faz depois de bombardear e tomar zonas de guerra disputadas e não existe ordenamento jurídico algum em vigor na área em que ele comete suas atrocidades.

Nenhuma força militar assiste, “do outro lado do muro”, crianças sendo queimadas vivas nem prisioneiros sendo afogados.

Desta forma, acuse-se o ISIS, os nazistas, os soldados japoneses na China, os italianos na Etiópia e tantos outros de cometerem estes crimes em nome de sociedades e regimes fanáticos que preservaram um senso de moral. Um senso, diria eu, de imoralidade, de perversão e justificativa para o assassinato em série em nome da raça, do partido ou da religião, mas, ainda assim, um ordenamento (doentio) da moral nacional.

A sociedade alemã nazista tinha moral! Uma moral capaz, inclusive, de retirar dos prisioneiros judeus nos campos de concentração a qualificação de seres humanos. O soldados japoneses em Nanking chamavam os chineses de “cachorros” e a força aérea fascista de Mussolini não considerava como sendo “pessoas” aqueles que morriam nos bombardeios na Etiópia.

Apesar disso, nenhum destes países (a Alemanha Nazista, a Itália Fascista e o Império Japonês) estavam paralisados moralmente.

Ninguém, dentre a população comum, vivia numa dimensão de adinamia, de indiferença e de anestesia do juízo crítico como se encontra o Brasil. Hitler não se atreveria a colocar crianças alemãs não judias nas câmaras de gás, Mussolini não poderia bombardear italianos e o exército imperial japonês não ousaria estuprar as mulheres em Tóquio (como fez em Nanking)

Afirmo, portanto, que a gigantesca maioria das pessoas que diz “não se importar” com o massacre dos prisioneiros de Manaus e Alcaçuz parte de um contexto de AMORALIDADE, não de opção refletida e calculada sobre o destino dos que morreram nos presídios. Não interessa se de fato eles “merecem ou não morrer”. 

A opção por “não me importar” é facilitada pelo fato de que o massacre já aconteceu: meu juízo é a posteriori e não me obriga, não me vincula à ação alguma. Minha ação é uma ação negativa: é o não agir, o não se importar.

Digo que este juízo a posteriori e esta ação negativa são resultantes das três características que definem um prisioneiro dos campos de concentração: o egoísmo, a solidão e o medo. São eles que “atomizam”, que “reduzem” e que “anulam” qualquer traço de individualidade, qualquer resquício de opinião própria, de sensibilidade e de juízo crítico dos quais poderia brotar uma “moral” nacional dentro ou fora de campos de concentração ou prisões.

O “judeu do campo de concentração” só pode ser “judeu” para o guarda alemão que vai levá-lo para câmara de gás. Para si mesmo, ele não pode representar mais nada, ele não tem mais identidade, ele não é mais ninguém.

Se ao invés de assistir seus colegas serem levados para a câmara de gás no campo de concentração, o prisioneiro de Auschwitz precisar assistir a sua decapitação, ele não vai se importar se quem morreu era um “judeu vagabundo e traficante de drogas” ou um judeu honesto que acordava às 4h da manhã para trabalhar na fábrica.

Ele também não vai comemorar se for o guarda alemão a ser decapitado pelo prisioneiro que está preso porque para ele não existe mais esperança nem dentro nem fora do campo numa Europa inteira que o quer ver morto. Um nazista ou um judeu a mais ou a menos não fazem diferença - o terror e a falta de sentido estão em toda parte: ele não é mais um indivíduo, não faz mais parte de um povo, não é mais nada.

Se ninguém se importa com as mortes dos prisioneiros em Alcaçuz e Manaus não é porque elas aconteceram dentro de penitenciárias – é porque, do ponto de vista espiritual, o Brasil inteiro é um Campo de Concentração.


Porto Alegre, 19 de janeiro de 2017

2 comentários:

  1. Belo texto, de uma percepção transcendental, porém muito triste. Definitivamente lamentável e irreversível em curto prazo.

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  2. Esse seu ponto de vista de dizer q ninguem se importa com as filas em hospitais educação precária e muitos outros pontos que voce abordou nao procede. O fato da população dizer que bandido bom é bandido morto nao quer dizer que as atrocidades sao coisas normais.o que a população quer dizer é que: um vagabundo que tirou a vida de um pai de família merece o mesmo destino. Mas talvez voce vai dizer que eles sao vítimas da sociedade... pois eu te afirmo que também vivi nessa sociedade e nem por isso me tornei alguem merecedor de viver atras das grades. Nao generalize e nem jogue a culpa na sociedade.

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