"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

sábado, 8 de julho de 2017

A situação fica ruim para Temer na Câmara

Revista ÉPOCA - capa da edição 994 - Eles confirmaram presença (Foto: Revista ÉPOCA)
A situação fica ruim para Temer na Câmara:

>> Trecho da reportagem de capa de ÉPOCA desta semana

"Vai lá no jantar hoje às 20h30?” O convite feito às pressas na noite da quarta-feira, dia 5, partia do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, do DEM, e tinha como destinatário o deputado mineiro Júlio Delgado, um dos expoentes do PSB na oposição ao governo Temer. Delgado afirmou que não poderia naquele horário, ao que Maia insistiu: “Passa lá mais tarde, vai às 22h30, vai às 23”. Delgado brincou: “Poxa, é muito tarde, não sou o Joesley (Batista) para você me receber neste horário”. (A brincadeira pegaria mal fosse o ouvinte um aliado mais próximo do presidente Michel Temer.) Passava pouco das 19 horas e, como vem fazendo nos últimos dias, a passagem de Maia pelo plenário foi breve. Logo deixou o local para fazer um agrado no gabinete da liderança do PSB, onde 15 deputados cantariam um “Parabéns a você” para a deputada Tereza Cristina, líder da bancada do partido, com 37 deputados.

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A vida de Maia tem sido uma sucessão de périplos por gabinetes, almoços e jantares, em um cenário no qual sob seu comando a Câmara decidirá o destino do presidente Michel Temer. Pode ou não afastá-lo do cargo por 180 dias para ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal e, depois, pode ter de eleger um substituto. Discretamente, mas em um crescendo, Maia se posiciona nesse delicado jogo que se acelera. Na segunda-feira, dia 3, e na terça-feira, dia 4, a residência da presidência da Câmara foi palco de jantares para dezenas de deputados de todos os matizes ideológicos, inclusive do PT. Na boca dos parlamentares eram recorrentes conversas sobre a possibilidade cada vez mais concreta de Maia assumir a Presidência da República com a eventual saída de Temer.

Orientado pelo pai, o ex-prefeito Cesar Maia, e sofrendo pressões constantes do sogro, o ministro Moreira Franco, dos mais antigos e fiéis aliados de Temer, Rodrigo Maia se distancia de um Palácio do Planalto acossado pela Lava Jato. Não foi às posses de ministros trocados recentemente por Temer. Não fez uma crítica sequer ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot – deixou Temer sozinho naquele agressivo pronunciamento contra Janot. Quando se tornou concreta a denúncia de Janot contra Temer por corrupção passiva – decorrente da delação premiada do empresário Joesley Batista, da JBS –, Maia enxergou a oportunidade. Tocar algum dos mais de 20 pedidos de impeachment de Temer que lotam a Câmara seria lento, doloroso e desgastante para ele. O caminho da denúncia é mais simples, basta seguir o rito obrigatório.

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Na semana passada, Maia encontrou a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia, para definir esse rito. Em um ato que enfureceu Temer, Maia decidiu votar em separado cada uma das três denúncias que Janot afirma que apresentará contra Temer, em vez de esperar, juntar e fazer uma votação única. Janot, o adversário, criou o problema para Temer; Maia, em tese um aliado, não o removeu. Assim, o presidente terá de se esforçar para juntar ao menos 172 votos contrários à denúncia, uma tarefa que parecia fácil tornou-se difícil e pode se transformar em quase inexequível para um governo tão exaurido. Mais ou menos como ocorreu com Dilma no fim de seu mandato. Não há como Temer não se preocupar com o que acontece na Câmara e é articulado nos almoços e jantares realizados em residências fora de lá.

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ÉPOCA conduziu na semana passada um levantamento sobre a posição dos deputados em relação à denúncia contra o presidente, que terá de ser votada no plenário, depois de passar pela Comissão de Constituição e Justiça (acompanhe o quadro com identificação dos parlamentares ao longo desta reportagem). Eles foram instados a responder se irão à sessão da Câmara que decidirá no voto se a denúncia de corrupção passiva contra Temer pode ou não prosseguir no Supremo. Foram instados também a responder como votarão: se pela admissibilidade da denúncia, contra a admissibilidade ou se ainda estão indecisos – alguns prefeririam nada responder. O resultado não é auspicioso para Temer. Mais de 330 deputados afirmaram que estarão na sessão, uma das mais importantes da história do Congresso. Se a Câmara decidir que sim, pela admissibilidade da denúncia, Temer será afastado do cargo por 180 dias; se disser que não, ele continua onde está, à espera das duas próximas denúncias a ser enviadas por Janot. Tão alta promessa de presença no plenário é um resultado ruim para o presidente, dado que a estratégia do Planalto é esvaziar a sessão. O busílis: a ausência à votação causa menos desgaste político do que o voto favorável ao presidente – declarado de pé, num microfone, com o Brasil inteiro acompanhando ao vivo, pela TV e pela internet. É altamente sintomático da situação difícil de Temer que tantos deputados, a tanto tempo da sessão, tenham se comprometido publicamente, por meio de ÉPOCA, a participar da votação.

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