"O maior inimigo da autoridade é o desprezo e a maneira mais segura de solapá-la é o riso." (Hannah Arendt 1906-1975)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

CARTA ABERTA DOS PEDIATRAS PARA O MINISTRO DA SAÚDE


A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), entidade que representa 35 mil pediatras que atuam no País, cerca de 70% no atendimento de crianças e adolescentes na rede pública, tem ciência dos meandros políticos de sua indicação para ocupar o cargo do mais alto escalão na gestão do Sistema Único de Saúde (SUS) e, continuamente, tem colocado especialistas à disposição do Governo Federal na tentativa de encontrar respostas para os históricos problemas que afetam o SUS, em todos os níveis de complexidade.

Esse é o compromisso que guia a SBP, independentemente de questões políticas ou ideológicas: contribuir para a melhoria da oferta do atendimento em saúde para a população. Contudo, é impossível para nós, pediatras, ficarmos calados diante de afrontas propositais, resultado de comentários e insinuações que nem de longe refletem a realidade da assistência no País.

A pediatria brasileira expressa, assim, sua profunda indignação com essa estratégia clara de promover polêmicas e lançar sobre os ombros dos médicos a responsabilidade pelas falhas da gestão do SUS, nas esferas federal, estadual e municipal. Contudo, ao contrário de frases de cunho pejorativo, os dados do próprio Ministério da Saúde comprovam a impertinência da generalização infundada.

Senhor Ministro, os médicos brasileiros, em particular os pediatras, “não fingem trabalhar”, conforme sua declaração pública. Eles trabalham, sim, e muito. Em 2016, foram realizadas mais de 43 milhões de consultas pediátricas, ou seja, cada pediatra que atua na rede pública respondeu, em média, por 1,8 mil atendimentos no período. No ano passado, o SUS também contabilizou quase 1,9 milhão de partos (normais e cesáreos), sendo a grande maioria deles acompanhados diretamente por pediatras.

A pediatria – e todas as suas áreas de atuação – está presente nas diferentes fases do atendimento de crianças e adolescentes, com ênfase na atenção básica. Historicamente, tem participado dos grandes programas nacionais, tais como campanhas de imunização, de nutrição, entre outros. Tal comprometimento é responsável pela significativa melhora dos indicadores de saúde.

Senhor Ministro, não se pode responsabilizar os médicos pela falta de infraestrutura nos postos de saúde e nos hospitais; pelo desabastecimento de insumos e medicamentos; pela dificuldade de acesso a exames, de forma particular aos de média e alta complexidade; pelo déficit de 10 mil leitos de internação pediátrica, fechados entre 2010 e 2016.

O SUS está doente e queremos sua recuperação. Lutamos para mantê-lo vivo e ativo todos os dias e não aceitamos que transformem essa agonia numa pauta de interesse político. Continuaremos a fazer nossa parte. Nós, pediatras e demais médicos, manteremos nosso trabalho porque os pacientes precisam de nós.

Contudo, Senhor Ministro, basta de provocações. Exigimos valorização e respeito pelo nosso compromisso permanente com a saúde, o qual não se pauta por interesses outros que não a vida e o bem-estar de milhões de brasileiros.

Rio de Janeiro, 17 de julho de 2017.

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